Num ano recheado de “Conversas às 5”, coube a Olívia Clara Pena a “última palavra” no fecho de um ciclo que trouxe ao Centro de Reabilitação do Norte, ao longo deste ano, poetas e ficcionistas, artistas plásticos, cineastas, músicos, fotógrafos e pensadores. Com direito a pinheirinho de Natal e luzinhas a piscar, a sala encheu-se para escutar a autora de “Amor e Outros Desencontros” e beber, em ambiente intimista, quase confessional, “o amor e outras delicadezas vertidos em palavras”. “Sou mãe, professora, bióloga, escrevo poesia e adoro dizer poesia”, começou por afirmar Olívia Clara Pena, em jeito de apresentação, para de seguida se virar para o seu trabalho poético, para um livro que surgiu “de forma inusitada”, fruto de um processo de crescimento gradual e que teve no período da pandemia um enorme incremento. “Escrevia porque precisava de escrever”, referiu a poetisa, para quem “a escrita é uma coisa compulsiva”. Os muitos escritos que foi reunindo serviram de base, primeiramente, a uma série de poemas e ilustrações, enviados para os interessados sob a forma de “cartas de amor”. De seguida, à poesia juntou-se a música, reveladora de mais uma faceta de Olívia Clara Pena (para além do seu gosto pela dança). Os muitos estímulos para escrever foram combustível que alimentou o fogo criador e o livro, ainda que não pensado inicialmente, acabou por surgir em 2024, editado pela Cordel D’ Prata.
A cargo do moderador, a apresentação de “Amor e Outros Desencontros” enfatizou a verdade que as palavras encerram e a sensibilidade da autora nesse processo sempre delicado de verter nas páginas do livro o amor e o fulgor, a presença e a falha, o corpo e o desejo, o tempo e a finitude. A partir daqui, o diálogo abriu-se a um conjunto de convidados que, de forma inteiramente livre, celebraram a poesia de Olívia Clara Pena, dizendo cada um alguns poemas da sua preferência. “ (…) há amigos que são pétalas de chuva / labirintos de ternura / florescem-nos viçosos / em cada redondo poro // e há aqueles que são cura / de dias de desventura // e aqueles que são trilhos / vibrantes desconhecidos // e há aqueles que são trova / que são bailado e são canção // e há os amigos / que ficam / que resistem / e persistem / que nos arejam por dentro / como se fossem feitos / apenas de ar puro.” Tornado Sarau Poético, o momento ofereceu-se à poesia em toda a sua plenitude, com Olívia Clara Pena a “abrir as hostilidades” e a declamar “Amigos”, colocando uma primeira e significativa pedra num edifício de emoções feito e que, até ao final da sessão, não mais cessou de crescer.
“Escondi as palavras ocas e sem retorno / frouxas e sem cor / flácidas. // Quero apenas palavras fecundas / Que trazem brilho nos olhos e maciezas na pele, / Serenas, apaziguadoras / Um presente”. Na esteira da palavra, Isabel Marcolino deu voz à poesia de Olívia Clara Pena, passando o testemunho aos diseurs seguintes. Fernando Ramos trouxe “A esperança”, “às vezes, (…) um sorvedouro de vida”; Gabriela Sá disse “Adeus” e Teresa Teixeira fez do momento uma “Prece e Anunciação”: “A poesia feminina / escava fendas no misterioso oculto / tem dias que é prece / e outros que é / anunciação.” Terminada a primeira ronda de poemas, novo momento de conversa, desta vez juntando a poesia ao universo da mulher. Para a poetisa, “sendo distintos os mundos masculino e feminino, em tempos de maiores dificuldades, de restrições à liberdade ou de ameaças à democracia, as mulheres são sempre quem mais sofre.” Maria Teresa Horta, Natália Correia ou Clara Pinto Correia são referidas como exemplo das ameaças que pendem sobre as mulheres, em particular sobre aquelas que arriscam, através da poesia ou de outras formas de arte, dar voz ao corpo e ao desejo. Olívia Clara Pena não escapa, com este livro, a uma certa afirmação política da sua poesia: “O fugirmos ao plano das ideias e ao confronto agressivo, o abraçarmos um lirismo fora de moda, o falar de forma doce, real, com o corpo, é um gesto político”.
Chamando ao palco a poesia de Olívia Clara Pena no início de nova vaga de emoções, Gabriela Sá trouxe consigo uma pergunta: “Como posso eu dizer-te adeus?”. Teresa Teixeira disse “ (…) um poema / de amor / e / de amar”, em “Oração”. Isabel Marcolino mostrou o “seu” poema, “Casa”: “O quarto / simples e nu / portadas de borboleta / Cheiro ameno e carmesim / fresta de luz e ternura.” Fernando Ramos fechou a ronda com “ (…) chuva / delicada e persistente / antevendo o convite / entre os pingos e a folhagem.” A sessão abriu-se às questões do público, nomeadamente na figura da “morte”, implícita na poesia da autora, que com ela tem “uma relação pouco apaziguada, de dificuldade em aceitar essa dimensão que nos toca”. Outra questão remeteu para o “silêncio” na sua poesia, visto pela autora em “duas dimensões”: Uma “luminosa”, nos espaços que abre à escuta e à reflexão; outra de “ausência, de um fim de comunicação, de separação”. A convidada encerraria a sessão lendo “O Tempo”, “(...) esse conceito abstracto / compasso de sonhos / carrasco d’ausências / doce e amigo / tempestade e raio de luz.” Francos e generosos, os aplausos irromperam e houve lugar a “encore”, primeiro com um apontamento em forma de poema, da autoria de Isabel Marcolino, um “roubar títulos” de homenagem à poeta. “No burburinho dos juncos / (…) no silêncio das papoilas”, um derradeiro poema lido por Olívia Clara Pena - ainda e sempre o amor - encerrou da melhor forma a sessão, gravando nos presentes as suas palavras: “O vento da serrania sussurra-me o teu amor, / Tão simples, / Tão leve, / Como este fluído que me corre nas veias.”
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