quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

EXPOSIÇÃO: "O Papel na Pele"


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EXPOSIÇÃO: “O Papel na Pele”,
de Ana Maria Pintora
Museu do Papel Terras de Santa Maria, Paços de Brandão
24 Nov 2018 > 31 Jan 2019


Como muitos outros mundos, também o da moda não dispensa o papel. Da ideia à prática, é rabiscando no papel que se desenvolve uma das etapas mais importantes de todo o processo criativo, sendo a partir daqui que as roupas ou as jóias começam a ganhar forma. Ana Maria Pintora quis ir mais além, fazendo do papel não um meio para o desenho e construção de modelos, mas um fim em si mesmo. “Queimando etapas”, ousou conceber na origem o objecto acabado e pronto para se “colar à pele”. Propondo-se “criar roupa de papel para um corpo humano dinâmico, inventivo e contemporâneo”, a artista desenvolveu um workshop distribuído por seis sessões, envolvendo doze participantes, ao longo do qual foram nascendo e crescendo trabalhos com tanto de imaginativo como de belo e cujo resultado pode ser agora apreciado no Museu do Papel das Terras de Santa Maria, em Paços de Brandão, numa exposição muito justamente designada “O Papel na Pele”.

Neste regresso a uma casa que conhece bem – há cerca de um ano, culminando uma residência artística, brindou-nos aqui com a sensibilidade e harmonia de “A Alma do Papel” -, a pintora Ana Maria prossegue a sua pesquisa em torno duma matéria-prima que, de tão arreigada no nosso quotidiano, é frequentemente desvalorizada. Ao fazê-lo num espaço privilegiado, reminiscência duma certa “revolução industrial” que marcou toda uma época e teve nesta região um forte impacto económico e social, a artista lembra-nos que, nos primórdios, na génese do fabrico de papel, estava a fibra, o tecido (o chamado “farrapo”) e que, simbolicamente, a construção de roupa de papel, mais do que o seu carácter experimental ou lúdico, deve ser entendida como o fechar de um ciclo sobre si mesmo. Mas há nesta exposição outro aspecto relevante e que se prende com o carácter efémero do papel e com o paralelismo que necessariamente se estabelece com a própria moda, fenómeno social que dita comportamentos e costumes e cujas tendências se fazem e desfazem da noite para o dia. Paradoxalmente, por mais frágil que possa ser, o papel resiste à efemeridade das sucessivas criações, continuando presente no processo e “a cumprir o seu papel”.

Regressando à exposição, é deveras interessante perceber o quanto de criatividade e labor artístico se concentra em cada trabalho. À imaginação junta-se o génio, permitindo que estas peças possam ser entendidas como objectos artísticos de reconhecidos méritos. As formas da arte estendem-se ao próprio espaço expositivo, a sala transformada numa singular “passerelle”, os pormenores de cada trabalho realçados por discretos efeitos de luz e sombra. Complementarmente, pode ser apreciado um conjunto de fotografias da autoria de Rui Morão, intervencionadas pela pintora Ana Maria, ilustrativas do “papel na pele” ou de que forma as criações se ajustam ao corpo. Ainda um pequeno mas significativo aparte: O breve programa que acompanha a exposição – na verdade, um conjunto de informações básicas impressas numa finíssima folha de papel em tamanho A5 – é, também ele, intervencionado e, assim, elevado à condição de objecto artístico. Ou de como um pormenor, aparentemente insignificante, pode dizer tanto acerca do cuidado, da sensiblidade e delicadeza, do amor que sustenta esta exposição. Para sempre na moda!

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