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sábado, 15 de agosto de 2026

LIVRO: “Jardins Secretos de Lisboa” | Manuela Gonzaga



LIVRO: “Jardins Secretos de Lisboa”,
de Manuela Gonzaga
Edição | Manuel S. Fonseca
Ed. Gradiva Publicações, Maio de 2026


“E foi assim que fez constar que a base de licitação para a primeira noite com a rapariga era de quinhentos contos de réis. A soma era tão disparatada que no “casino” começaram a aparecer frequentadores que já não visitavam a casa há muito tempo, só para verem, ao vivo, a rapariga que levara Brigite a perder a noção das realidades. O facto é que a notícia agitou Lisboa numa onda sísmica de conversas picantes, com epicentro na Baixa e no Chiado. Do Parque Mayer ao Gambrinus, do Tavares Rico ao Paraíso, o assunto era comentado, discutido, analisado, em almoços e jantares, e os ecos deste escândalo puseram as putas finas do Nina, um cabaré junto ao S. Carlos, a chorar de tanto rir.”

Que bom voltar a cruzar-me com Manuela Gonzaga e com a elegância da sua escrita, o seu olhar arguto, a sua capacidade notável de tornar essencial o que não passaria de acessório ao leitor menos disponível. Dos primórdios da sua carreira de escritora chega-nos, à boleia de uma muito saudada reedição, “Jardins Secretos de Lisboa”, um romance que reforça o gosto da escritora pelas vidas de gentes e lugares e que nos aproxima de uma Lisboa algures entre os anos 60 e o início do novo milénio. Sob a cidade visível, o romance parece abrir uma complexa cartografia, feita de memórias, desejos, ruínas e personagens que sobrevivem nas margens da história que nos ensinam. Alice, fotógrafa desiludida e afastada da sua própria vocação, reencontra Jorge, homem de língua ferina, libertino e desconcertante, que a conduz por uma Lisboa luminosa e decadente, sensual e melancólica, onde o passado teima em persistir. O percurso amoroso depressa se transforma numa descida aos subterrâneos da cidade e, simultaneamente, aos subterrâneos de si própria. A cidade deixa de ser apenas cenário, para se transformar num organismo vivo, arquivo e espelho em simultâneo. De simples lugares reconhecíveis, Chiado, Baixa, Rossio, Restauradores, Cais do Sodré ou Avenida da Liberdade convertem-se em espaços de iniciação. Os jardins são secretos porque pertencem àquilo que a cidade esconde e porque, no fundo, guardam um território íntimo ao qual nem sempre as personagens conseguem regressar.

É na escrita que o romance encontra uma das suas forças mais evidentes. Manuela Gonzaga escreve com uma fluidez desarmante, baseada numa construção narrativa de grande precisão. A frase pode ser directa, coloquial, irónica, para logo se abrir numa imagem de inesperada intensidade. O diálogo inicial entre Alice e Jorge é exemplar: o jogo de recusas - “Vamos jantar hoje?”, “Não.”; “Então, vamos almoçar amanhã.”, “Não.” - instala de imediato ritmo, carácter e tensão, sem necessidade de explicações. Jorge entra na narrativa pela fala, e a sua fala é como uma lâmina: provoca, seduz, agride, diverte. Alice, pelo contrário, observa, resiste, recorda. graças a esse contraste, o leitor é puxado para o cerne da história. A certa altura, a narradora confessa que Jorge “usava, e usa, as palavras como facas”, definição que poderia servir, por extensão, para caracterizar a própria autora: também Manuela Gonzaga sabe manejar a palavra como instrumento de revelação, denotando uma notável capacidade de transformar o banal em matéria literária. Uma ida de Metro, um almoço, uma passagem por uma ginjinha, um baile na Avenida da Liberdade tornam-se episódios de descoberta. A cidade mostra-se de soslaio e pisca o olho a Alice, cujo olhar fotográfico selecciona, enquadra, fixa. Só que, neste caso, a imagem faz-se de palavras.

Há em “Jardins Secretos de Lisboa” qualquer coisa de familiar, uma sensação singular de reconhecimento, mesmo se o leitor é conduzido a lugares ocultos ou a histórias que fazem parte de uma Lisboa entretanto desaparecida. A elegância de Manuela Gonzaga nasce precisamente dessa capacidade de fazer conviver o íntimo e o colectivo, as recordações pessoais e a memória de toda uma cidade. O passado de Alice, a história do pai fotógrafo, o incêndio, a perda da fotografia, o casamento desfeito e as imagens difusas de Luanda entrelaçam-se com a transformação urbana e política de Portugal, criando um romance onde a intimidade permanece lado a lado com a História. A própria reflexão sobre a fotografia explicita essa poética: “é preciso saber [...] que, às vezes, até o olhar nos engana.” É uma frase que poderia servir de chave para todo o livro. Porque também a escrita de Manuela Gonzaga refracta a realidade: desvia-a, altera-lhe o ângulo, acrescenta-lhe sombras e devolve-a mais nítida. Lisboa surge assim como uma cidade de camadas, cujos lugares perdidos permanecem inscritos na memória de quem os viveu. Quando Alice contempla os jardins abandonados, o lago desaparecido, as árvores do Jardim Botânico e os prédios que deixaram de ser os mesmos, o leitor é convidado a fazer a mesma viagem e a descobrir o que permanecia oculto. “Jardins Secretos de Lisboa” faz-nos sentir que estamos a revisitar lugares esquecidos, mesmo se nunca lá estivemos. E fá-lo sem nostalgias fáceis, antes com a consciência de que toda a memória é também uma forma de ficção e que, por vezes, só a ficção consegue devolver à vida o que o tempo julgou perdido.

domingo, 3 de janeiro de 2021

LIVRO: "António Variações - Entre Braga e Nova Iorque"



LIVRO: “António Variações – Entre Braga e Nova Iorque”,
de Manuela Gonzaga
Ed. Bertrand Editora, Junho de 2018


“ – Era muito especial. Tinha péssimo feitio, era trombudo, antipático e... fascinante. Uma pessoa dizia-lhe ‘eu quero isto ou aquilo’ e ele respondia: ‘não quer nada, quem decide sou eu’. Alguém avisava que estava com pressa e ele respondia ‘se está com pressa, vá-se embora’. Eu fazia sempre questão de cortar o cabelo com ele, mas sentava-me e não abria a boca. Olhava-o pelo espelho e pensava ‘este ser não é daqui’. Parecia um anjo. Um anjo maldisposto, mas... um anjo.”

Morreu muito novo, com apenas 40 anos, em dia de Santo António. Chamava-se António Joaquim Rodrigues Ribeiro, mas ficou para a História com o nome de António Variações. Desde então, os ecos da sua passagem meteórica por este mundo não mais deixaram de se fazer ouvir. Em 2006, a escritora e activista Manuela Gonzaga decidiu escrever a sua biografia, publicada com a chancela da Âncora Editora. Regressou a ele 12 anos mais tarde, agora com a Bertrand Editora, para uma “nova edição revista e ampliada”. Nela, refere-se ao artista como “um anjo excessivo, curioso e clarividente, cheio de fome de Tempo e de Vida, com duas faces como convém aos anjos que caem na Terra, uma lunar outra solar, feitas de santidade e lama, uma ave-do-paraíso, uma paixão.”

António Variações é daquelas figuras icónicas que, quanto mais o tempo passa, mais se imiscui na alma da gente. Nascido em 03 de Dezembro de 1944 em Fiscal, Amares, teve uma infância brevíssima em tempos muito duros, os abalos provocados pela II Guerra Mundial a atingirem de forma impiedosa o nosso País e a porem a nu as marcas da pobreza e das desigualdades. Com 11 anos apenas rumou a Lisboa, a casa de um familiar afastado, para trabalhar como marçano. Começa aqui uma vida de descobertas e de conquistas que o levaram a Londres e a Amsterdão antes de novo regresso a Lisboa onde se estabeleceu como barbeiro e foi ensaiando a subida definitiva aos palcos da fama. Depois são os avanços e recuos de uma carreira controversa, os amigos e os outros, um enorme sofrimento interior que se adivinha em muitas das suas tomadas de decisão, até ao trágico desfecho da sua morte nos Cuidados Intensivos do Hospital da Cruz Vermelha, vencido por uma broncopneumonia bilateral aguda fulminante.

Numa escrita cuidada, reveladora de um enorme respeito e carinho pelo artista, Manuela Gonzaga mostra-nos um António Variações “de uma genuína delicadeza, de uma imensa sensibilidade e de um enorme sentido de humor a raiar o cáustico”, ao mesmo tempo que recorda um tempo e uma sociedade a erguer-se das sombras da ditadura e a abraçar a novidade com um misto de desconfiança e ilusão. Da movida de Lisboa ao tempo de Variações, a autora oferece-nos retratos nítidos, no centro dos quais situa essa “figura apaixonante no deserto desta cidade tão provinciana na época, com uma meia de cada cor, os roupões, o fato-macaco, os sapatos diferentes, o visual tão criativo e tão fantástico.” É um livro que se lê de um fôlego, que a um tempo nos diverte e nos comove, que respeita a verdade e cumpre da melhor forma o objectivo de mostrar Variações naquilo que foi e no que deixou de legado seu. Um livro precioso.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

LIVRO: "Doida Não e Não!"



LIVRO: “Doida Não e Não!”,
de Manuela Gonzaga
Ed. Bertrand Editora, Fevereiro de 2018


No meu percurso de leitor assíduo e atento, devo confessar que não encontro em biografias um apelo particularmente sedutor. Passam-me pelas mãos de longe em longe, sempre por manifesto interesse em aprofundar o meu conhecimento sobre a vida dos biografados, mas fica-me, normalmente, um sabor a desilusão, ora porque a obra se embrenha em considerandos “técnicos” que a tornam fastidiosa e de difícil entendimento, ora porque se revela demasiado ligeira, a ficção a assomar aqui e ali, retirando-lhe a necessária credibilidade. Daí que comece, desde já, por tirar o chapéu a “Doida Não e Não!”, de Manuela Gonzaga, obra que se configura como honrosa excepção à particular regra da minha experiência pessoal, trilhando com rigor e determinação caminhos de risco e sabendo evitar os muitos escolhos que, seguramente, lhe foram surgindo pela frente. O que é uma virtude!

Não caindo em excessos de qualquer ordem, a autora oferece-nos uma narrativa intensa e rica de imagens, ao encontro de Maria Adelaide Coelho da Cunha, uma mulher “presa num manicómio por um crime de amor”, como se pode ler na própria capa do livro. O caso desta mulher da alta sociedade do início do século passado, que se vê legalmente privada de liberdade apenas por dar livre curso aos ditames do seu coração, configura um dos mais lamentáveis erros da história da justiça portuguesa, sobretudo porque assente em “doutos” pareceres médicos e confirmado por decreto. Mas ele é também a imagem dum País pequenino e mesquinho, que menorizava o papel da mulher na sociedade e fazia tábua-rasa dos seus direitos, um estigma que, desgraçadamente, vingou até aos dias de hoje.

Detalhando todo o intrincado processo, enquadrando os vários momentos nos espaços que lhes são devidos, pintando retratos de época de enorme riqueza e contextualizando de forma objectiva cada desenvolvimento – os momentos de clausura no Hospital do Conde de Ferreira são disto um bom exemplo -, Manuela Gonzaga oferece-nos uma narrativa intensa e absorvente, de grande rigor histórico, simultaneamente fascinante e aterradora pelo que encerra de maldade humana, arbitrariedade e prepotência, mas também de força e coragem numa luta desigual pelo direito ao reconhecimento e pela reposição da verdade e dignidade. Particularmente interessante é a estrutura formal da narrativa, afastando-se do eixo central sempre que importa particularizar, a ele regressando com a repetição do que ficara dito anteriormente, num “tomar o fio à meada” inteligente e que o leitor agradece. Um excelente livro e que é, ao mesmo tempo, um importante sinal de alerta numa sociedade que ainda vê a mulher como o “sexo fraco” e tem um problema não resolvido com questões como paridade e igualdade de género, discrepâncias salariais e precariedade e, voltando ao assunto do livro, com a forma discriminatória como a justiça portuguesa continua a olhar para a mulher em pleno século XXI.