Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Madalena Alfaia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Madalena Alfaia. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 7 de outubro de 2025

LIVRO: "Leme" | Madalena Sá Fernandes



LIVROS: “Leme”,
de Madalena Sá Fernandes
Edição | Madalena Alfaia
Ed. Companhia das Letras, Março de 2023 (7.ª republicação, Agosto de 2025)


“A necessidade de ‘escrever’ uma pessoa para, de alguma forma, nos apaziguarmos com ela ou dela nos libertarmos, é o que me tem movido para escrever sobre o papel do Paulo na minha vida. Transformando-o em personagem, alimento a crença de que ele passe a pertencer mais a estas páginas do que à minha vida. É uma tentativa de me salvar, não pela fuga, mas pelo encontro na escrita. Um encontro feito de palavras. Passei anos a evitar pensar nele, a fugir, e não resultou, pelo contrário. Talvez só desta forma eu consiga eliminar a sua presença, como se estivesse a limpar finalmente toda a areia que ficou colada entre os dedos dos pés.”

“Leme” narra a história de Madalena, uma criança que cresceu num ambiente familiar disfuncional, assistiu à separação dos pais e, mais tarde, viveu com a mãe e o padrasto. O clima de tensão e os episódios frequentes de violência doméstica obrigaram-na a carregar dentro de si um peso esmagador. Em estado de alerta permanente, soube que um som mais brusco ou um olhar mais frio poderia ser o prenúncio de um novo momento de terror. O medo tornou-se o seu idioma secreto; aprendeu a ler o ambiente com olhos de sobrevivente, a esconder-se no silêncio, a antecipar a raiva como quem tenta adivinhar uma tempestade. Esporádicos, os gestos de amor surgiam feridos, confusos, raramente seguros. Na ausência de conforto, aprendeu a alimentar-se da solidão - não porque quisesse, mas porque nela encontrava algum refúgio, algum controlo. A fúria e a tristeza misturaram-se com uma culpa que não era sua, mas que se instalou como se fosse. Cresceu depressa demais, mas por dentro permaneceu prisioneira, parada no tempo, o coração cheio de perguntas sem respostas e uma carência funda, incapaz de nomear.

“Escreve de forma clara e limpa sobre o que dói.” A frase de Ernest Hemingway está na origem de uma obra literária incisiva e libertadora, exercício catártico que possibilitou a Madalena Sá Fernandes resolver um passado sempre presente e assumir com normalidade a figura de uma pessoa que, além do que fez sofrer, sofreu também de maneira intensa. Dividido em capítulos curtos, o livro mescla os momentos de tensão com os de acalmia, vertidos em longos dias de férias na praia, nas pequenas alianças, no gosto da mãe pela leitura - “os livros dela pareciam sobreviventes de guerra; acabavam enrugados, com páginas amareladas pelo café ou danificadas pela cinza dos cigarros, marcas de quem lhes imprimia vícios enquanto absorvia as virtudes.” São momentos felizes, que servem de contraponto às conturbadas vivências junto de alguém que sofria de bipolaridade, vivia obcecado pela organização e pela arrumação, e que tinha nos ímpetos de agressividade, nos insultos, nos gritos ou nas portas arremessadas com dramatismo, traços distintivos de uma personalidade doentia.

Narrado na primeira pessoa, o romance revela-se de uma enorme coragem, a escritora a partilhar com o leitor um viver e um sentir que foi o seu. Fá-lo de forma inteligente, alimentando uma proximidade cuidada às situações de maneira a imprimir-lhes a carga dramática que verdadeiramente possuem, mas distanciando-se o suficiente para evitar a prosa condescendente, a tentação panfletária ou a vitimização. Ao assumir o livro no plano literário como excelente obra que é, mostra a sua rejeição pelo sensacionalismo e foge do universo da auto-ajuda. A escrita é fluida, solta, recheada de momentos com os quais o leitor facilmente se identifica, integrando na história o calor da compreensão e da empatia por alguém que vive em solidão. Eis a melhor forma de iluminar a vida de Madalena e de ergue-la no que tem de intrinsecamente humano, bom e justo. Entre o romance biográfico e a auto-ficção, “Leme” é um retrato de vida amargo, de uma crueza que agride no que tem de medo e dor, mas ao mesmo tempo redentor, pelo que revela de firmeza, esperança e força de viver.

quarta-feira, 17 de maio de 2023

LIVRO: "Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro"



LIVRO: “Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro”,
de Susana Moreira Marques
Edição | Madalena Alfaia
Ed. Companhia das Letras, Abril 2023


“Como estaria a minha avó fora de campo? Como se vestiria: com roupas que estavam na moda, ou não? Como estaria penteada: da maneira que se penteava em anos mais recentes, ou diferente? Como se comportaria fora de campo? Estaria nervosa? Estaria sentada, calmamente, a olhar para mim, ou em pé, mostrando ter alguma pressa, talvez porque tinha que me devolver aos meus pais ou porque tinha que ir fazer o jantar para o meu avô? Estaria silenciosa, discreta, como era seu costume, ou teria decidido fazer algum tipo de conversa com o fotógrafo? Estaria a dar-me instruções, reforçando as indicações do fotógrafo? Que ar teria ela no momento em que o fotógrafo apontava a câmara e disparava? Pareceria orgulhosa? Preocupada? Cansada? Esperançosa? Carinhosa? Tudo isso junto? O que esconderia a sua expressão, que ficou por registar? Que ficção seria possível criar a partir desse olhar?”

Antes do livro, um filme. Ou melhor, um documentário, realizado por Marta Pessoa em 2022 e intitulado “Um Nome Para o Que Sou”. Um mergulho no universo de Maria Lamas, tradutora e jornalista, feminista e activista política, autora de “As Mulheres do Meu País”, retrato minucioso da condição da mulher em Portugal nos anos 1940. O documentário é sobre o processo de escrita deste livro e, inevitavelmente, sobre as suas implicações, a denúncia vigorosa de um regime que promovia a imagem da “mulher dona de casa”, quando trabalhar fora de casa era a realidade de uma grande parte das mulheres portuguesas. Susana Moreira Marques escreveu os textos para o documentário (também é sua a voz que narra o próprio texto) e não se ficou por aqui. Às notas que foi tomando, acrescentou muitas outras já depois de o documentário estar pronto. Soube, desde o início, que as mulheres retratadas por Maria Lamas não eram mulheres distantes de outra época. A memória que delas conservava diziam-lhe directamente respeito. A si e à sua história. Também à das suas filhas. O resultado é este “Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro”. E é belíssimo.

Depois de uma breve nota explicativa, somos convidados a reter “algumas imagens para acompanharem a leitura”. São imagens de uma grande intimidade, que nos levam por estradas desertas onde os animais se passeiam à solta, nos sentam à lareira a olhar para as chamas nos momentos de silêncio ou nos fazem passar pelas mãos as imagens a preto e branco que temos em casa, em álbuns de família, e para as quais raramente olhamos. A intimidade faz-se presença em tudo: É Susana Moreira Marques a olhar-nos nos olhos e a contaminar-nos com os seus porquês. De repente cai-nos nas mãos um livro e tanto podemos ver nele um guia de viagem como uma bíblia, um manual como “um volume esotérico, um instrumento mágico, que dará acesso ao que há muito está desaparecido”. “As Mulheres do Meu País” leva Susana Moreira Marques a recuar a 1949, a uma altura em que a mãe está na barriga da avó. “A [minha] avó tem 23 anos. Está casada. Tem um filho de um ano. Anda com cargas à cabeça sem se desequilibrar do rio para as fábricas.” Sabe que a avó não está entre essas mulheres com quem Maria Lamas acaba de ir falar. Mas é esta avó que Susana Moreira Marques procura. E na qual se encontrará. E nós? Que sabemos nós das nossas avós? Do tempo das nossas avós?

“Talvez todas as viagens - no país ou fora do país - sejam feitas para termos a certeza de onde vimos.” A viagem faz-se de interrogações, dúvidas. “Mulher”, “escrava” ou “épico” são palavras recorrentes no livro de Maria Lamas e voltam a sê-lo com Susana Moreira Marques. Os gestos que uma observou - o modo como as mães seguram nos bebés, como as rapariguinhas pegam nas mãos das mais pequenas para as afastar dos perigos, como as mulheres põem as mãos nas ancas em vez de nos bolsos -, observa a outra três quartos de século depois, como “frames de um movimento contínuo”. Quando encontramos as “jornaleiras” na estação das castanhas, “o rosto muito perto da terra, as mãos que não param, o corpo que carrega o peso do que se apanhou”, percebemos que a diferença está no final da jorna, onde há “uma televisão para a qual voltar depois do dia inteiro curvadas sobre si mesmas.” Como memória de leitura, Susana Moreira Marques deixa-nos alguns sons, o correr da água nos caminhos, o toque dos sinos, as canções da infância cantadas por vozes envelhecidas, o soprar desimpedido do vento nos lugares de onde os incêndios levaram as folhagens das árvores. O ruído de virar as páginas de um livro. Deste livro, do qual fica a vontade de fazermos perguntas e a certeza de estarmos a olhar em frente ao olharmos para trás.