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sábado, 18 de julho de 2026

LIVRO: "Se Esta Rua Falasse" | James Baldwin



LIVRO: “Se Esta Rua Falasse”,
de James Baldwin
Título original | If Beale Street Could Talk” (© 1974, James Baldwin)
Tradução | José Mário Silva
Ed. Alfaguara, Setembro de 2018 (3.ª republicação, Agosto de 2022)


“Instala-se um silêncio, e ficamos a olhar um para o outro. Estamos a olhar um para o outro quando a porta atrás do Fonny se abre, e o homem aparece. Este é sempre o pior momento, quando o Fonny tem de se levantar e virar, e eu tenho de me levantar e virar. Mas o Fonny encara isto a bem. Levanta-se e ergue o punho. Sorri e fica ali de pé, por um momento, olhando-me nos olhos. Algo passa dele para mim, é amor e coragem. Sim. Sim. Vamos conseguir, seja como for. Seja como for. Levanto-me, com um sorriso, e ergo o punho. Ele regressa ao inferno. Eu caminho para o deserto do Sara.”

James Baldwin sempre me seduziu pela verdade da sua escrita e pela precisão e lucidez do seu olhar. A dimensão sociológica e política do seu pensamento, a forma como denuncia o racismo estrutural, sem artifícios, através de situações simples que expõem, com uma força devastadora, a violência entranhada no quotidiano, torna a sua escrita incómoda e fascinante à vez. É essa clareza — simultaneamente serena e dilacerante — que torna a sua obra tão necessária quanto inesquecível. Esta verdade está patente, uma vez mais, em “Se Esta Rua Falasse”, uma história aparentemente simples através da qual o autor constrói um dos mais contundentes retratos da América racializada da segunda metade do século XX. Tish e Fonny, amigos de infância que descobrem no amor uma promessa de futuro, vêem o seu projecto de vida abruptamente interrompido quando o jovem é acusado de violação e metido na prisão. A partir daí, o romance transforma-se numa reflexão profunda sobre a desigualdade, a arbitrariedade da justiça e a vulnerabilidade dos cidadãos negros perante instituições que parecem concebidas para os marginalizar.

Quinto romance de James Baldwin, “Se Esta Rua Falasse” não trata apenas da denuncia de um erro judicial. O livro expõe a lógica de um sistema onde a presunção de culpa recai frequentemente sobre os mesmos corpos e a mesma cor da pele. Nesse território, feito de sujeição, vergonha e humilhação, a verdade torna-se secundária perante o preconceito. O drama de Fonny adquire, assim, uma dimensão colectiva, convertendo-se no símbolo de milhares de vidas esmagadas por uma engrenagem social que perpetua a exclusão sob a aparência da legalidade. Contudo, reduzir o romance a uma denúncia política seria ignorar aquilo que lhe confere a sua força mais duradoura. Em contraponto ao peso da injustiça, Baldwin coloca o amor como forma de resistência. O sentimento que une Tish e Fonny preserva uma energia vital que permite enfrentar o medo, a afronta e a incerteza. A gravidez de Tish introduz uma poderosa dimensão simbólica: enquanto o sistema tenta destruir uma vida, outra prepara-se para nascer.

A família fecha-se em torno do casal, no que constitui um dos aspectos mais poderosos da obra. Pais, irmãos e amigos mobilizam-se numa demonstração de solidariedade que revela a importância dos laços afectivos nas comunidades oprimidas. James Baldwin possui o dom de conciliar intensidade emocional e lucidez analítica sem sacrificar nenhuma delas. A narração de Tish aproxima o leitor das experiências mais íntimas das personagens, criando uma sensação de proximidade que amplifica a dimensão dos acontecimentos. O autor evita o melodrama fácil e prefere uma linguagem depurada, directa e profundamente humana, cada frase carregada de ternura, revolta e compaixão. Essa contenção estilística torna ainda mais poderosa a crítica social que percorre o romance. Em simultâneo, a obra ultrapassa largamente o contexto histórico em que foi escrita. Embora enraizada na realidade afro-americana, fala de mecanismos de exclusão, de relações de poder e da luta pela dignidade que permanecem reconhecíveis em muitas sociedades contemporâneas.

Décadas após a sua publicação, o romance preserva uma impressionante actualidade. A persistência dos debates em torno do racismo estrutural, da violência policial e das desigualdades no acesso à justiça confirma a relevância das questões levantadas por James Baldwin. Mais do que um documento sobre uma época, “Se Esta Rua Falasse” é uma obra literária de grande alcance social e moral, capaz de transformar uma experiência particular numa reflexão universal sobre o amor, a liberdade e a resistência. Contam-se pelos dedos de uma mão os escritores capazes de articular com semelhante clareza a relação entre o íntimo e o político, entre a dor individual e a realidade colectiva. “Se Esta Rua Falasse” é um livro que denuncia sem ser panfletário, emociona sem ser lamechas e recorda que, mesmo perante a injustiça mais brutal, a Humanidade continua a encontrar formas de sobreviver e de afirmar a sua dignidade.

terça-feira, 30 de maio de 2023

LIVRO: "O Quarto de Giovanni"



LIVRO: “O Quarto de Giovanni”,
de James Baldwin
Título original | “Giovanni’s Room” (1956)
Tradução | Valério Romão
Ed. Alfaguara, Maio de 2020


“As pessoas são demasiado diversas para serem tratadas com tanta ligeireza. Eu sou demasiado diverso para ser confiável. Se assim não fosse, não estaria esta noite sozinho nesta casa. A Hella não estaria no mar alto. E o Giovanni não estaria condenado a morrer, algures entre esta noite e a manhã que se aproxima, guilhotinado.”

Socorro-me do adjectivo “esmagador” quando penso na dificuldade em escrever um apontamento, por breve que seja, sobre um livro de James Baldwin. Hesitei perante a força e intensidade de “Se o Disseres na Montanha”, um dos melhores livros que li na minha vida, e essa hesitação mantém-se até aos dias de hoje. Rompo com a hesitação neste “O Quarto de Giovanni”, extraordinário retrato da relação homossexual que se estabelece entre David, jovem diletante americano que busca em Paris um rumo para a sua vida, e Giovanni, um empregado de bar italiano. O tempo é o do pós-segunda guerra mundial, mas não é ainda um tempo de amplas liberdades. Numa sociedade dominada pelo cinismo, o preconceito e a homofobia resultam em comportamentos persecutórios que concorrem para o isolamento daqueles que revelam uma orientação sexual divergente da “normalidade”. Afirma-se o medo e a culpa, questiona-se o que é possível assumir, mede-se o que cada um esconde de si próprio. No corpo e na alma crescem as feridas.

Uma casa luxuosa na periferia de uma estância de férias de Verão, no Sul de França. Lá fora escurece pouco a pouco. À janela, “na mão um copo, uma garrafa junto ao cotovelo”, está David. Antes do regresso a Paris, que acontecerá na manhã seguinte, o tempo é de balanço. Um olhar retrospectivo leva-o até à infância, à perda da mãe, ao mau relacionamento com o pai, à sua iniciação sexual com um rapaz como ele. O momento é doloroso, fá-lo reequacionar a sua sexualidade, convencer-se do quão errado é sentir-se atraído por alguém do mesmo sexo. A insegurança e ambivalência do seu comportamento irão prolongar-se e ampliar as contradições que o perturbam e confundem. Disposto a contrariar a sua própria natureza, conheceu Hella a quem pediu em casamento. Também ela americana, precisa de tempo para reflectir: faz um périplo por Espanha e acaba a dizer-lhe que sim, tão logo regressa. Entretanto, David conheceu Giovanni e as dúvidas avolumaram-se. Tudo naquele quarto o repugnava, mas nele permaneceu três semanas, entre a atracção e a rejeição. Como diz o poeta, “pode alguém ser quem não é?”

O desfecho desta história é dado por Baldwin logo no início, mas os pormenores vão sendo oferecidos a conta-gotas, num exercício de gestão de expectativas do leitor absolutamente genial. À medida que mergulhamos no romance, vamos decifrando as interrogações de David e compreendendo a dificuldade em aceitar os seus sentimentos. Simultaneamente, damo-nos conta da solidão e do enorme vazio existencial em que a personagem – e mais tarde Giovanni – se encontra. A narrativa na primeira pessoa adensa o tom confessional do livro. A alternância entre passado e presente cria momentos de grande tensão, explorando o ardor dos sentimentos e a violência daquilo a que se convencionou chamar “destino”. O que James Baldwin oferece de bandeja ao leitor não é “o obscuro objecto do desejo”, antes o próprio desejo: urgente, irrefreável, sem limites. Fá-lo numa linguagem com tanto de elegância como de pudor, quase num sussurro. Um sussurro que é um grito, que fere na sua urgência, que obriga o leitor a pensar o outro, a respeitá-lo, a abraçá-lo.