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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

CINEMA: “A Qualquer Custo” | Elegance Bratton



CINEMA: “A Qualquer Custo” / “By Any Means”
Realização | Elegance Bratton
Argumento | Sascha Penn
Fotografia | Ante Cheng
Montagem | Kristan Sprague
Interpretação | Yahya Abdul-Mateen II, Mark Wahlberg, Nicole Beharie, David Strathairn, Josh Lucas, LisaGay Hamilton, Ethan Embry, Giancarlo Esposito, LaChanze, Biko Eisen-Martin, Will Brittain, DeVere Jehl, Jody Thompson, Zach Lane, Lee Perkins, Mike Hickman, John C. Martin, Daniel Annone, Nicholas Logan
Produção | Chester Algernal Gordon, Elegance Bratton, Alex Lebovici, Erica Lee, Basil Iwanyk, Stephen Levinson, Mark Wahlberg
Estados Unidos | 2026 | Acção, Crime, Thriller | 107 Minutos | Maiores de 16 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 16
09 Set 2026 | qua | 13:30


“A Qualquer Custo” faz-nos recuar ao Mississippi de 1966 para revisitar uma das faces mais brutais da história dos Estados Unidos. Convém,  porém, começar por esclarecer o estatuto da matéria projectada no ecrã. O filme inspira-se no assassínio real do empresário e activista dos direitos civis Vernon Dahmer e na figura igualmente real de Gregory Scarpa, mafioso nova-iorquino que colaborou durante anos com o FBI. A partir daí, porém, entra decididamente no território da ficção: Wayne Strider, o jovem agente negro que conduz a narrativa, é uma personagem composta e imaginada para o filme, e muitas das situações da investigação foram dramatizadas ou construídas para servir o thriller. Mais do que reconstituir os factos, Elegance Bratton, o realizador, procura uma espécie de verdade histórica e emocional. Essa opção permite-lhe deslocar o ponto de vista habitual destas narrativas, colocando no centro um homem negro que representa uma instituição federal, mas descobre que o seu distintivo pouco vale numa sociedade dominada pela segregação. Este Mississippi é menos um cenário de época para se afirmar como território onde a violência racial permanece inscrita no quotidiano.

Na tensão entre a lei e a realidade encontra “A Qualquer Custo” a sua melhor matéria. Elegance Bratton organiza o filme em torno de uma associação improvável entre o agente Strider, empenhado em preservar os seus princípios, e Scarpa, homem habituado a resolver problemas por meios que a lei não pode admitir. A fórmula do duo de personalidades incompatíveis não é nova e evoca inevitavelmente vários policiais anteriores, tal como a investigação num Sul hostil recorda outras incursões cinematográficas pelo racismo americano. Ainda assim, a mudança de perspectiva é importante. Onde tantos filmes sobre os direitos civis olharam para a transformação moral de personagens brancas, Bratton concentra-se na experiência de um agente negro que é sistematicamente humilhado pelo mesmo país que serve. Yahya Abdul-Mateen II sustenta essa contradição com contenção e convicção, tornando perceptível a raiva que a personagem tenta reprimir. O problema está menos nas ideias do que na maneira, por vezes demasiado explícita, como o argumento as expõe: os racistas são rapidamente identificáveis, a opressão raramente ganha zonas de ambiguidade e a violência acaba por ocupar o espaço que poderia pertencer a uma reflexão mais complexa.

Daí resulta um thriller histórico simultaneamente eficaz e limitado, movido por uma indignação genuína que nem sempre encontra a forma mais subtil de se exprimir. Bratton parece querer transformar a fúria perante a violência racista numa experiência de cinema popular, nervosa e frontal, e consegue-o graças ao ritmo, à atmosfera e a uma realização suficientemente segura para manter a atenção. Mas “A Qualquer Custo” também carrega o peso dos modelos que convoca, recorrendo a convenções do policial, do filme de parceiros e da narrativa de vingança sem as reinventar verdadeiramente. A questão moral que o atravessa - saber se a violência pode tornar-se um instrumento legítimo quando as instituições falham - é a sua ideia mais provocadora, embora o filme nem sempre lhe dê a profundidade necessária. Ao privilegiar o impulso da acção, simplifica aquilo que pretendia problematizar. Ainda assim, “A Qualquer Custo” permanece uma obra curiosa e inquieta, que vale menos pela exactidão da sua relação com os factos do que pela forma como usa a ficção para interrogar um passado cujas feridas, como o filme insiste em mostrar, continuam longe de estar inteiramente encerradas.