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quarta-feira, 9 de maio de 2018

VISITA GUIADA: "Passado o Painel"



VISITA GUIADA: “Passado o Painel”
Orientada por | Paulo Paiva Fonseca
Organizada por | Câmara Municipal de Ovar, Serviço de Turismo
05 Mai 2018 | sab | 15:00 – 17:30


Realizada na tarde do passado sábado, a segunda Visita Guiada no âmbito do programa Maio do Azulejo levou os participantes ao encontro de casas que contam histórias. Orientada pelo Arquitecto Paulo Paiva Fonseca, a visita enquadrou-se numa vertente de Urbanismo e Arquitectura e pretendeu evidenciar a forte relação entre o exterior das habitações e o seu interior, entre a fachada e aquilo que, “passado o painel”, encerra uma identidade própria, expressa na organização funcional do espaço interior, nos materiais e técnicas construtivas, no carácter dos ornamentos e, dum modo mais lato, no próprio contexto urbano.

Com ponto de partida em plena Praça da República, junto ao cruzamento dos dois grandes eixos da cidade – a “Estrada da Ria” e a “Estrada do Mar”  -, os participantes na Visita Guiada dirigiram-se à Rua Padre Férrer onde, no número 86, puderam visitar uma casa que é um verdadeiro ícone da arquitectura ovarense. Com uma tipologia estreita e comprida e uma função exclusivamente doméstica, este tipo de casas têm no longo corredor que liga a entrada principal à porta que dá para o quintal o seu eixo principal, a sala e a cozinha a ocuparem os dois extremos da habitação, os quartos e o acesso ao sótão dispostos no meio. Já no número 59 da Rua Cândido dos Reis, a casa visitada teve até há bem pouco tempo uma função comercial, com loja no piso inferior e o piso superior destinado à habitação. De enorme beleza são as pinturas nas paredes, procurando imitar pedras ornamentais e os estuques dos tectos das salas. Os evidentes sinais de degradação que tanto esta casa como a anterior evidenciam serviram de pretexto ao Arquitecto Paulo Paiva Fonseca para assumir, do seu ponto de vista, o assunto da reabilitação de imóveis como uma oportunidade e um desafio que se coloca, não apenas aos proprietários, como à sociedade em geral, convidada a colaborar na preservação dum património que é de todos.

O último exemplar visitado, situado no número 37 da Rua Alexandre Herculano, é um edifício propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Ovar e onde funciona o Centro Comunitário Espaço Aberto. Trata-se duma casa cuja construção remonta ao Século XVIII e que sofreu várias remodelações até aos nossos dias, cujas marcas podem ser facilmente observadas. Também aqui o piso superior era destinado a habitação, servindo o piso inferior para albergar alguns serviços (estábulos? armazenamento de alimentos?). Ricamente decorada – nicho com figura de culto no exterior, espaço para oratório, salões do piso superior com tectos apainelados em madeira, belos painéis de azulejo nalgumas dependências, nomeadamente nas cozinhas -, a habitação esteve na posse de ilustres médicos ovarenses, sendo ainda possível observar no tecto da divisão que funcionou como Consultório o símbolo da Medicina. A visita terminou com uma deslocação ao sótão da casa, onde foi possível perceber a dimensão das principais intervenções sofridas ao longo dos quase três séculos de existência.

terça-feira, 8 de maio de 2018

VISITA GUIADA: "Igreja Matriz de Válega, Cemitério de Válega e Capela de Nossa Senhora de Entráguas"



VISITA GUIADA: “Igreja Matriz de Válega, Cemitério de Válega e Capela de Nossa Senhora de Entráguas”
Orientada por | Sofia Vechina
Organizada por | Câmara Municipal de Ovar, Serviço de Turismo
05 Mai 2018 | sab | 10:00 – 12:30


Pelo segundo ano consecutivo, Maio é o mês do Azulejo na Cidade de Ovar. Visitas guiadas, exposições, oficinas, sessões de esclarecimento e actividades lúdicas estão entre as várias actividades preparadas pelo Serviço de Turismo da Câmara Municipal de Ovar para sublinhar a importância do azulejo como elemento diferenciador deste singular território e, ao mesmo tempo, sensibilizar para a importância da sua preservação e valorização. É neste âmbito que se insere a visita guiada à Igreja Matriz de Válega, Cemitério de Válega e Capela de Nossa Senhora de Entráguas, orientada pela historiadora Sofia Vechina e que reuniu, na estupenda manhã do passado sábado, duas dezenas de participantes para duas horas e meia de história, cultura e partilha de experiências.

A Igreja Matriz de Válega, com a sua exuberância policromática conferida pelos enormes painéis de azulejo que revestem tanto o exterior como o interior do templo, foi o primeiro ponto de paragem. Depois de apreciar o painel de Nossa Senhora do Amparo, obra do aguarelista Jorge Colaço e que Sofia Vechina considera “uma peça única” no Concelho de Ovar, o grupo dirigiu-se para o adro da Igreja onde tomou conhecimento da história do templo, desde o lançamento da primeira pedra, em 20 de Novembro de 1746, até à aplicação do azulejo da fachada em 1960, uma encomenda do Comendador António Maria Augusto da Silva.

Das referências à primitiva Igreja, remontando a 1150 e que a localizam, provavelmente, no lugar de Seixo Branco, às mais recentes intervenções, nomeadamente a construção do tecto de caixotões de madeira exótica, obra patrocinada pelos irmãos Oliveira Lopes, os vitrais assinados S. Cuadrado (Madrid) e o revestimento dos alçados laterais e posterior, com desenho do Arquitecto Januário Godinho, tudo foi passado a pente fino. Sofia Vechina fez questão de enfatizar a representação do programa mariano nos painéis do interior da Igreja, a presença de ilustres valeguenses – Cónego Dr. Joaquim Manuel Valente, D. António Valente da Fonseca, Monsenhor Miguel de Oliveira e o próprio Comendador António Maria Augusto da Silva – nos vitrais da Capela Mor, uma representação “raríssima no contexto da arte portuguesa” que evoca a morte de S. José, no Coro Alto e os painéis de azulejo do Baptistério (de 1958), que são uma cópia dos existentes na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no Porto, da autoria de Dórdio Gomes. 

Particularmente interessante foi o confronto entre as várias representações azulejares e as obras originais, com destaque para a “Entrega das Chaves a S. Pedro”, de Pietro Perugino (1481-1482, fresco da Capela Sistina, Vaticano), a “Proclamação do Dogma da Imaculada Conceição”, de Franceso Podesti (1854, Sala dell’Immacolata, Vaticano), os “Esponsais da Virgem”, de Rafael (1504, Pinacoteca de Brera, Milão), “A Anunciação”, de Bartolomé Esteban Murillo (c. 1660, Hermitage, S. Petersburgo) ou “Maternidade”, do mesmo Murillo e cujo original se encontra no Museu do Prado, em Madrid.

Já no Cemitério de Válega foi dada a oportunidade aos participantes nesta Visita Guiada de apreciarem um jazigo recoberto com belíssimos azulejos azuis com representações de anjos, flores e uma balaustrada a assinalar a transição entre o terreno e o celeste, a vida e a morte. Encomenda de um particular, o painel de azulejos apresenta um carácter semi-industrial e nele são evidentes irregularidades na superfície que têm a ver com o processo de fabrico por prensa e que não se encontram, por exemplo, nos azulejos da Igreja Matriz de Válega. Durante o trajecto entre o Cemitério e a Capela de Nossa Senhora de Entráguas, Sofia Vechina chamou a atenção para um conjunto de casas azulejadas com padrões de belo efeito, algumas delas seculares e que, sobressaindo das restantes, serviam de elemento distintivo do estatuto social dos seus habitantes. 

Última paragem desta visita, a Capela de Nossa Senhora de Entráguas impressiona pela sua traça - onde sobressai o conjunto de contrafortes, fazendo dela um exemplar arquitectónico único no Concelho - e também pela altura inusual do presbitério, elevado para que na sua base pudessem ser depositados os restos mortais de D. Diogo Lobo, Bispo da Guarda e encomendador desta Capela construída em 1628. A par da lenda que sustenta o levantamento do templo e da alusão a alguns ex-votos que, infelizmente, não foi possível observar, a historiadora realçou a importância dos azulejos originais que decoram uma parte do friso do presbitério, para a beleza do seu desenho e para o carácter estritamente artesanal da sua confecção. Foi uma excelente forma de fechar uma Visita Guiada de enorme valor e interesse, ligando o património religioso ao património azulejar e vincando, neste pequeno percurso, as diferentes datações e processos de fabrico associados aos azulejos.