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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

CINEMA: “Elisa” | Leonardo Di Costanzo



CINEMA: “Elisa”
Realização | Leonardo Di Costanzo
Argumento | Leonardo Di Costanzo, Bruno Oliviero, Valia Santella
Fotografia | Luca Bigazzi
Montagem | Carlotta Cristiani
Interpretação | Barbara Ronchi, Roschdy Zem, Diego Ribon, Valeria Golino, Giorgio Montanini, Hippolyte Girardot, Monica Codena, Roberta Da Soller, Marco Brinzi, Nadia Kibout, Josépha Yang, Federico Di Costanzo, Adeline Tayoro, Antonio Buíl, Roberta Fossile
Produção | Carlo Cresto-Dina, Manuela Melissano
Itália, Suíça | 2025 | Drama | 105 Minutos | Maiores de 14 anos
UCI Arrábida 20 - Sala 7
01 Set 2026 | ter | 13:35


A história de Elisa, mulher que assassinou a irmã e tentou fazer o mesmo com a mãe, poderia prestar-se ao espectáculo da monstruosidade ou à psicologia redutora da excepção. O filme escolhe, porém, o caminho mais incómodo: aproximar-se daquilo que permanece irredutível, mesmo quando compreender se afigura insuportável. Nele encontramos a matéria de um melodrama, de um policial ou de um filme de tribunal. Mas “Elisa” afasta-se dessas possibilidades na exacta medida em que recusa a distância moral que nos permitiria olhar a protagonista como alguém suficientemente diferente de nós para que a sua violência não nos diga respeito. O que Di Costanzo coloca em causa não é a gravidade do crime, que nunca relativiza, mas a nossa necessidade de o encerrar numa explicação tranquilizadora. Compreender não é absolver, mas aceitar que entre a vítima e o carrasco, entre a consciência e o acto, existe uma zona obscura onde as categorias morais perdem nitidez. A carta final do criminologista desloca essa obscuridade do espaço doméstico para o espaço da História: a guerra, a violência entre povos, a construção de inimigos. O gesto é subtil, mas devastador. Aquilo que parecia ser a história singular de uma mulher, transforma-se na interrogação sobre uma espécie inteira que, demasiadas vezes, só consegue compreender a violência depois de a ter cometido.

É significativo que o filme encontre a sua matéria privilegiada no diálogo. Cinco encontros, longos, quase imóveis, entre Elisa e o criminologista: duas pessoas sentadas diante uma da outra, falando durante minutos que o cinema contemporâneo tantas vezes teria pressa em cortar. Di Costanzo faz dessa duração não uma resistência à linguagem cinematográfica, mas a própria matéria da “mise-en-scène”. O que importa não é apenas aquilo que Elisa diz, mas aquilo que acontece enquanto o diz: o silêncio que antecede uma frase, a palavra que custa a sair, a pequena fissura que atravessa um rosto. Barbara Ronchi oferece ao filme uma interpretação de extraordinária inteligência, porque não representa simplesmente uma mulher culpada; representa uma mulher que vai regressando àquilo que fez. Há nela qualquer coisa de inconsciência e de culpa, como se a noção do que fez fosse uma consequência tardia do acto. A câmara de Luca Bigazzi compreende esse princípio e não o violenta. Na sala das entrevistas, a luz exterior atravessa as persianas, fragmenta o espaço, chega aos corpos filtrada. Não é necessário que a fotografia diga que Elisa vive separada do seu passado. Basta que a imagem conserve essa separação.

Daí que a questão do realismo em “Elisa” seja menos estética do que moral. A prisão é um hotel abandonado no meio da floresta, um lugar que a lógica convencional da representação tornaria pouco plausível. E, no entanto, acreditamos nele. Porque o cinema não precisa de reproduzir o real para ser realista: precisa de nos fazer acreditar na experiência que propõe. A diferença é decisiva. “Elisa” mostra que a verdade cinematográfica não nasce da acumulação de artifícios, mas da atenção concedida aos rostos, aos corpos, aos espaços e, sobretudo, ao tempo. É por isso que a sua aparente austeridade acaba por ser profundamente perturbadora. O filme não nos oferece a catarse confortável da condenação nem a redenção igualmente confortável da compreensão. Mantém-nos diante de uma mulher que cometeu o imperdoável e obriga-nos a reconhecer que o acto de julgar nos coloca frequentemente no território da violência. Nesse sentido, “Elisa” é um filme político precisamente porque não parece sê-lo: em vez de nos dizer de que lado devemos estar, interroga a própria necessidade de haver sempre um lado. E, num presente saturado de certezas instantâneas, poucas posições serão mais radicais do que a de permanecer diante do outro o tempo suficiente para que ele deixe de ser apenas o seu crime.