LUGARES: Alhambra
Calle Real de la Alhambra, Granada
Horários | Todos os dias, das 08:30 às 20:00 (01 de Abril a 14 de Outubro) e das 08:30 às 18:00 (15 de Outubro a 31 de Março)
Ingressos | € 22,27 (bilhete geral)
Estamos na Alhambra de Granada. Há muito que ficou para trás o controlo de entradas e estamos agora no coração daquele que é o lugar mais visitado de toda a Espanha. Franquear a Porta da Justiça é como cruzar uma fronteira entre tempos desiguais. Mandado erguer por Yusuf I em 1348, o arco que se ergue no seio do conjunto monumental continua a exigir silêncio antes mesmo de impor respeito. Na pedra sobrevivem a mão e a chave, símbolos da lei e da autoridade, enquanto uma pequena imagem cristã recorda que a História é feita de camadas. Diante do visitante abre-se não apenas uma fortaleza, não apenas um palácio, mas uma cidade palatina, coração político, militar e cerimonial do derradeiro reino islâmico da Península. O seu nome continua envolto em mistério. Talvez venha de al-Hamra, “a Vermelha”, pela tonalidade da terra e dos muros; talvez das tochas que iluminavam as obras nocturnas; talvez do cognome de Muhammad I, o fundador. Seja qual for a origem, a verdade é que a Alhambra parece nascer da própria colina. Onde havia apenas pedra, os soberanos nasridas fizeram nascer um oásis. Desviaram águas do Darro, plantaram ciprestes, roseiras, laranjeiras e jasmineiros, abriram pátios onde a água canta baixinho e transformaram um promontório austero numa visão do paraíso na terra.
Torna-se por demais evidente que este lugar foi concebido para impressionar, para encantar e para afirmar poder. Não um poder ruidoso, mas subtil: o de quem domina a arte de converter a luz, a água e a palavra em instrumentos de governação. Caminhemos até à Alcáçova, o núcleo mais antigo do conjunto. Aqui a Alhambra revela a sua primeira identidade: antes de ser palácio foi fortaleza. Os tijolos avermelhados das muralhas parecem guardar ainda o eco das sentinelas que vigiavam o vale. Das torres da Vela e de Menagem, Granada surge como um mapa vivo, estendido aos pés do visitante. O que mais surpreende, porém, não está à vista. Sob a superfície corre um mundo subterrâneo de galerias, silos, cisternas e passagens cuja extensão continua a alimentar lendas. Alguns corredores serviam soldados e criados; outros conduziam a masmorras onde prisioneiros aguardavam resgate ou troca. Há relatos de homens atirados para poços escuros, esquecidos durante anos. Ainda hoje os arqueólogos exploram estes espaços ocultos, onde a realidade e o mito se confundem. Foi talvez por um desses caminhos secretos que Muhammad V escapou à revolta que o expulsou do trono em 1359. Regressaria três anos mais tarde para inaugurar a idade de ouro nasrida e legar à posteridade os espaços mais apetecíveis da Alhambra. Torna-se evidente que a magnificência dos palácios repousava sobre uma complexa maquinaria humana. Acima, os embaixadores admiravam fontes e arabescos; abaixo, uma mole imensa de serviçais garantia o normal funcionamento de um autêntico sonho.
Subimos agora ao Mexuar, onde se administrava o poder. Era aqui que ministros, funcionários e magistrados davam forma burocrática às decisões do sultão. A Alhambra possuía uma sofisticada geografia social: cada grupo circulava por percursos distintos para que raramente se cruzassem. O poder também se organizava através da arquitectura. Atravessamos o Palácio de Comares e admiramos o magnífico Pátio dos Arrayanes. O espelho de água alongado reflecte colunas, galerias e céus com uma serenidade que mesmo as hordas de turistas não conseguem quebrar. Nas paredes multiplicam-se inscrições árabes: poemas, bênçãos, louvores, desejos de fortuna. Um estudioso chegou a afirmar que, se desaparecessem colunas e arcadas, a Alhambra continuaria de pé sustentada pelas palavras. Em cada friso repete-se o lema da dinastia: “Só Deus é vencedor”. Entramos depois no Salão dos Embaixadores, instalado na Torre de Comares. Era o coração político do reino. Aqui eram recebidas delegações estrangeiras destinadas a regressar aos seus países relatando maravilhas. O tecto representa simbolicamente os céus islâmicos e a ascensão da alma até à esfera divina. Séculos mais tarde, Washington Irving contemplaria as estrelas a partir destas proximidades, recolhendo histórias que transformariam a Alhambra numa referência universal do imaginário romântico. Graças a ele, princesas e sultões, fantasmas e tesouros ocultos passaram a habitar para sempre a memória destes lugares.
Chegamos enfim ao Pátio dos Leões, talvez a imagem mais reconhecível da Alhambra. Contudo, nada prepara verdadeiramente o visitante para esta experiência. O espaço organiza-se como uma representação do paraíso descrito pela tradição islâmica. Quatro canais dividem o pátio e convergem para a célebre fonte sustentada por doze leões de mármore. Em redor, uma floresta de colunas cria uma sensação de leveza impressionante. A pedra parece tecido; os arcos fazem lembrar cortinas agitadas por uma leve brisa. Nas salas adjacentes encontramos algumas das obras-primas do génio nasrida. A Sala das Duas Irmãs exibe uma cúpula de estalactites que parece dissolver a matéria em luz. A Sala dos Abencerrajes conserva a memória da mais famosa lenda sangrenta de Granada: a execução de uma poderosa linhagem nobiliárquica por ordem do Emir Boabdil. Durante séculos contou-se que a água da fonte corria vermelha pelo sangue dos condenados. Verdade ou ficção, a narrativa sobrevive porque combina os ingredientes favoritos da memória colectiva: amor, traição e tragédia. Ao lado, a Sala dos Reis recorda os dias em que embaixadas estrangeiras eram recebidas entre tapeçarias, perfumes e cerimónias destinadas a exibir riqueza e refinamento.
A visita termina no Generalife, refúgio estival dos sultões. Para aqui vinham quando o calor apertava entre os muros da cidade palatina. O som da água acompanha cada passo. Corre por levadas, salta nas fontes, refresca pátios e alimenta jardins onde cresce uma exuberante vegetação. O Pátio da Acequia permanece como uma das mais perfeitas expressões da arte islâmica de domesticar a paisagem sem a violentar. Tudo parece espontâneo, embora nada tenha sido deixado ao acaso. Ao longe distinguimos ainda o palácio renascentista de Carlos V, o grande intruso de pedra que a monarquia cristã implantou no coração do universo nasrida. Paradoxalmente, essa presença ajuda-nos a compreender a singularidade da Alhambra. Após a conquista de 1492, Isabel de Castela poderia tê-la destruído. Preferiu preservá-la. Mais tarde vieram o abandono, os soldados napoleónicos, os habitantes pobres que ocuparam salas vazias, e finalmente a redescoberta patrimonial. A Alhambra sobreviveu porque nunca deixou de ser habitada, amada ou imaginada. Quando sai, o visitante leva consigo mais do que a recordação de um monumento. Leva a sensação rara de ter percorrido uma cidade construída entre a História e o sonho, onde a água escreve, a pedra recita os mais belos poemas e o tempo, ainda que por instantes, se detém para nosso espanto e fascínio.
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