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sábado, 25 de julho de 2026

LIVRO: "A Brutalidade do Movimento Conjugado" | Carla Pais



LIVRO: “A Brutalidade do Movimento Conjugado”,
de Carla Pais
Edição | Dinis H. Machado
Ed. The Poets and Dragons Society, Fevereiro de 2026


“EQUAÇÃO IMPERFEITA”

Não adormeças, meu filho,
não ainda,
que a vida vem branca e límpida encher-te a inocência de histórias por contar
e eu ainda não te falei dos meninos que cantam canções à saída da escola
cheios de palavras incompletas a cobrir de beleza o coração das mães.
Nem te falei das estrelas que enchiam de sonhos os teus olhos
nem das camas dos bichos escondidos nas florestas
a trinta e cinco quilómetros de Paris,
nem dos pássaros que atravessavam o tempo para fazerem ninho
na magnólia branca do jardim.

Há ainda tanto por dizer, meu filho
por isso, não adormeças, arreda do teu sono o silêncio dos anjos
e pousa a tua mão inocente no meu peito
deixa-me, pelo menos, guardar a ideia de um corpo no meu colo
a tua vida de mil quatrocentos e sessenta dias suspensa
na equação imperfeita desta casa.

De Carla Pais já nada nos pode surpreender e, a prová-lo, aí esta esta maravilhosa colecção de poemas, intitulada “A Brutalidade do Movimento Conjugado”, dada à estampa no início do ano com a chancela da The Poets and Dragons Society. Não se trata de um livro fácil de habitar, sendo necessário aguardar pelo final da leitura para compreendermos a sua verdadeira unidade. O próprio título, que à primeira vista parece convocar um movimento físico ou histórico, acaba por revelar uma dimensão muito mais funda, a remeter para a nossa própria existência. Os três cantos em que se divide - “infância”, “maternidade” e “civilização remediada” - não constituem secções independentes, antes tempos de um mesmo verbo humano. A criança já transporta em si a perda; a mãe aprende que amar é viver sob a iminência do luto; a civilização descobre-se incapaz de impedir que a violência se torne linguagem quotidiana. Tudo se encontra conjugado numa mesma experiência, e é precisamente dessa conjugação que nasce a brutalidade a que Carla Pais dá voz. O livro descreve um movimento contínuo, sem verdadeiras fronteiras entre a memória e a História, entre a casa da aldeia e a cidade devastada, entre o ventre onde germina o fruto e a terra que recebe os mortos. A autora parece dizer-nos que nenhuma vida pode ser compreendida isoladamente, porque todas transportam as vidas que as antecederam e as que estão para vir. Nessa arquitectura secreta alcança o livro uma admirável unidade, cada poema como parte de um todo feito de tempo, perda, substituição, alteridade e permanência.

A coerência de “A Brutalidade do Movimento Conjugado” nasce também de uma escrita de invulgar singularidade formal. Entre a frase poética e a prosa lírica, Carla Pais cultiva uma sintaxe que lhe é própria, feita de pontuação suspensa, enumeração, repetição quase litânica e de acumulação de imagens que, no seu todo, revelam uma respiração muito particular. Os poemas parecem crescer por sedimentação, como se cada palavra convocasse inevitavelmente a seguinte e a memória nunca pudesse surgir de forma linear. Há uma recorrência de elementos - os pássaros, os cães, a pedra, o sangue, a terra, o lume, as mãos, a casa - que funciona menos como insistência temática do que como verdadeiro sistema simbólico. Cada reaparição acrescenta espessura ao universo da autora, fazendo com que as imagens se iluminem mutuamente ao longo do livro. É inevitável reconhecer, nesta construção, afinidades com alguns dos grandes nomes da literatura portuguesa contemporânea. Não por influência directa ou por semelhança estilística imediata, mas porque Carla Pais parece herdar de Herberto Helder a convicção de que o poema é um organismo vivo, em permanente transformação; de Maria Gabriela Llansol, a dissolução das fronteiras entre memória, espaço e tempo; e de Ruy Belo a extraordinária capacidade de elevar o quotidiano à categoria de metafísico. A sua voz, contudo, permanece profundamente autónoma, encontrando na sobriedade do seu léxico uma identidade imediatamente reconhecível.

É nesse universo formal que a infância ganha uma extraordinária densidade. Carla Pais não escreve sobre a infância como quem contempla um passado idealizado; escreve a partir dela, como se nunca tivesse abandonado completamente o lugar onde tudo tem o seu início. A aldeia, a casa, a cozinha, os cães, os pássaros e, sobretudo, a figura da avó deixam de ser simples referências autobiográficas para se converterem numa geografia moral onde se aprende o valor do amor, do medo, da dádiva e da perda. O caminho da escola tem o tamanho das asas abertas de um pássaro em pleno voo é a admirável tradução dessa capacidade de medir o mundo pela escala do espanto. Também a maternidade prolonga esse mesmo território afectivo, recusando qualquer visão idílica. Em Carla Pais, toda a mãe continua a ser filha, e todo o filho transporta consigo a vulnerabilidade da criança que foi. Talvez nenhum verso sintetize melhor essa consciência do que a imagem dos “filhos” enquanto “sementes paridas numa falésia clandestina onde só as mães podem morrer”. A maternidade deixa de ser celebração para se expor ao medo de forma absoluta, sem que o poema ceda, por uma vez que seja, ao sentimentalismo ou à facilidade da emoção.

Ao atingirmos o derradeiro canto, compreendemos finalmente que a memória familiar nunca foi um fim em si mesma, antes a primeira linguagem possível para falar do sofrimento universal. A “civilização remediada” de Carla Pais é um mundo onde a violência deixou de ser acontecimento excepcional para se tornar condição permanente da existência. Em “Gaza”, como antes na evocação dos mortos da família, a autora escolhe sempre o olhar da criança para revelar aquilo que os adultos desaprenderam de ver. O gesto é profundamente ético: aproximar a intimidade da História, fazer caber a guerra dentro da cozinha da avó, colocar o mesmo sangue a correr entre uma aldeia portuguesa e o Médio Oriente devastado. Nada há de panfletário nesta poesia, porque a autora nunca escreve sobre acontecimentos; escreve sobre vidas. Isso faz com que “A Brutalidade do Movimento Conjugado” permaneça muito para além da sua leitura. Não é apenas um livro sobre a infância, a maternidade ou o nosso tempo. É um livro sobre aquilo que persiste apesar da morte, apesar da guerra e apesar da erosão da memória: a obstinação profundamente humana de continuar a amar quando todas as razões parecem aconselhar o contrário. É essa fidelidade ao humano, sustentada por uma arquitectura poética profundamente consistente, que faz de “A Brutalidade do Movimento Conjugado” uma obra de leitura incontornável e afirma Carla Pais como uma das vozes maiores da nossa literatura.

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