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sábado, 11 de julho de 2026

LIVRO: "Sodade" | Ana da Cunha



LIVRO: “Sodade”,
de Ana da Cunha
Edição | Inês Pedrosa, Gilson Lopes
Ed. Sibila Publicações, Julho de 2025 (2.ª edição, Outubro de 2025)


“Talvez tudo tenha começado quando entrámos para a escola primária. Dantes, viver significava correr pelos terrenos pantanosos, jogar à bola na terra batida, escondermo-nos nas ruínas. Dantes, o mundo era esse Tejo sem limites, que se mantinha sereno perante a nossa presença. E, de repente, tudo isso se transformou na sala de aula, algures a meio da encosta, onde os miúdos de todo o Porto Brandão se misturavam. Miúdos que nunca tínhamos visto antes. Lembro-me bem do primeiro dia de escola: do barulho do giz contra o quadro de ardósia, das palavras que ainda não decifrávamos a formarem-se na superfície enrugada, e dos miúdos brancos que ordenavam aos pretos que se sentassem na fila de trás, berrando-nos numa língua que não dominávamos.”

“Sodade”, de Ana da Cunha, é um exercício de recuperação de factos esquecidos, apostado em devolver humanidade àquilo que a História foi atirando para as margens. Partindo da pergunta que uma mãe dirige ao filho nos derradeiros instantes de vida - “Fidj, que é feito do Carlitos?” -, a autora constrói uma narrativa em que a busca de um amigo de infância depressa se materializa numa memória que muitos querem ver apagada. Desse lugar sem nome emerge o Asilo 28 de Maio, em Porto Brandão, que rapidamente adquire a espessura de personagem ao concentrar, nas suas múltiplas vidas - lazareto, orfanato, abrigo improvisado para dezenas de famílias cabo-verdianas chegadas a Portugal depois do 25 de Abril -, sucessivas camadas de exclusão, preconceito e resistência. Neste espaço, simultaneamente físico e simbólico, concentra Ana da Cunha a investigação jornalística que precedeu o romance, à qual soube acrescentar a liberdade da ficção. Daqui resulta um livro onde o real e o imaginário se misturam e confundem, em cuja autenticidade dos ambientes e das vozes se sente o rigor documental e onde a literatura se manifesta na subtileza com que um episódio pouco conhecido da nossa história recente se transforma numa reflexão sobre identidade, desenraizamento e pertença.

Mais do que reconstituir o tempo, “Sodade” restitui-lhe o pulsar, recusando tanto a nostalgia complacente como a denúncia panfletária. Ao longo das suas páginas, a autora lembra que há passados cuja persistência depende apenas de alguém disposto a escutá-los, antes que o silêncio os apague por completo. A infância de Zé no Asilo é atravessada pela precariedade material, mas também por uma extraordinária riqueza afectiva, as “avós” da comunidade como guardiãs de histórias, saberes e canções capazes de converter um espaço de exclusão num lugar de pertença. Nessa convivência entre a dureza e a ternura, adquire a narrativa uma invulgar densidade emocional, reforçada pelo diálogo entre memória individual e memória colectiva. Ana da Cunha mostra como os mais velhos frequentemente escolhem o silêncio como forma de proteger os filhos dos episódios mais dolorosos da sua existência. Contudo, esse gesto de amor acarreta um risco inevitável: o desaparecimento da própria História. A demanda de Zé por Carlitos acaba, assim, por simbolizar uma procura mais vasta, a de um passado que Portugal preferiu esquecer, quer no que respeita à diáspora cabo-verdiana, quer à forma hesitante como acolheu tantas vidas deslocadas pela descolonização.

“Não bastam quatro paredes para salvar uma comunidade”. A vaga de retornados no pós-25 de Abril e o desenraizamento de comunidades inteiras não ficou resolvido com a simples entrega de uma chave. As dependências, o abandono escolar, a perda das redes de solidariedade e o silêncio de quem nunca aprendeu a nomear os próprios traumas prolongam-se muito para além da mudança de morada, revelando as insuficiências de um processo de integração que tantas vezes privilegiou a resolução administrativa em detrimento da dimensão humana. Ana da Cunha não escreve para corrigir a História oficial, mas para lhe devolver rostos, vozes e afectos que ficaram de fora das narrativas dominantes. Fá-lo através de uma prosa límpida, de forte cadência oral, onde o crioulo surge integrado com naturalidade e nunca como ornamento exótico, revelando um trabalho de escuta tão importante quanto o de escrita. Num tempo em que a literatura é frequentemente convocada para reconstituir aquilo que os arquivos calam, “Sodade” afirma-se como um romance de memória no sentido mais lato do termo: não porque procure cristalizar o passado, mas porque compreende que recordar é um acto de responsabilidade cívica. Ao fechar o livro, permanece a convicção de que o esquecimento nunca acontece por acaso; resulta sempre das histórias que decidimos deixar por contar.

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