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sexta-feira, 10 de julho de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Pensar a Cidade”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Pensar a Cidade”,
de Hermano Noronha, Maria Louceiro, Ricardo Alves, Teresa Lamas Serra e Victor Leal
Curadoria | Aníbal Lemos
Galeria do Centro de Arte de S. João da Madeira
27 Jun > 30 Jul 2026 


Patente na Galeria do Centro de Arte de S. João da Madeira, a exposição “Pensar a Cidade” é o resultado de uma residência artística de fotografia pensada como um exercício de leitura do território sanjoanense. Escapando ao registo meramente documental, a mostra afirma-se como uma reflexão sobre a identidade urbana, a memória colectiva e a forma como os lugares persistem através das imagens. Embora todos os autores partam da mesma cidade, nenhum procura ilustrá-la de forma descritiva ou celebratória. Pelo contrário, a exposição assume que uma cidade nunca é um objecto fechado, antes um organismo em permanente transformação, construído por sobreposições de tempos, vivências e afectos. A fotografia surge, assim, como um dispositivo de interpretação, onde o real é constantemente contaminado pelo olhar de quem observa. A unidade da exposição nasce dessa diversidade de perspectivas, demonstrando que o território não se esgota na sua geografia física, encontrando um natural prolongamento na memória, na experiência individual e no poder que a imagem tem de revelar aquilo que habitualmente permanece invisível ao quotidiano.

Entre os cinco fotógrafos convidados, as abordagens recusam uma uniformidade narrativa para funcionarem em complementaridade. Hermano Noronha entende a fotografia como acto de resistência contra o esquecimento, encontrando na antiga paisagem industrial sinais de uma identidade que se reinventa. Maria Louceiro aproxima-se de um universo onírico, fundindo fragmentos da cidade com elementos simbólicos e produzindo imagens que parecem oscilar entre a recordação e a imaginação. Ricardo Alves prefere o detalhe discreto, os reflexos, as geometrias e as pequenas rupturas do espaço urbano. Teresa Lamas Serra devolve protagonismo ao património silencioso do ferro forjado, transformando elementos utilitários em testemunhos da história colectiva e da dignidade do trabalho anónimo. Já Victor Leal desloca o foco para os gestos domésticos e para os sinais de cuidado inscritos nos objectos e nas fachadas, questionando subtilmente as fronteiras entre preservação, abandono e afecto. Em conjunto, estes percursos recusam o espectáculo da imagem fácil para privilegiarem uma observação lenta e profundamente humana.

Num ano em que S. João da Madeira celebra o centenário da sua elevação a Concelho, “Pensar a Cidade” alcança uma dimensão simbólica que ultrapassa a mera circunstância comemorativa. Recusando o exercício nostálgico ou a simples homenagem institucional, a exposição convida o visitante a reconsiderar aquilo que constitui a identidade de uma cidade: não apenas os seus edifícios ou a sua história industrial, mas sobretudo os fios invisíveis que ligam espaço, memória e comunidade. Existe um equilíbrio particularmente conseguido entre a qualidade estética das obras e a sua capacidade de produzir pensamento, demonstrando que a fotografia pode ser simultaneamente documento, ensaio visual e criação artística. Ao privilegiar a ambiguidade em detrimento da evidência, a mostra desafia o público a abandonar a posição confortável de mero observador para participar activamente na construção de significados. É essa disponibilidade para levantar questões, mais do que fornecer respostas, que faz de “Pensar a Cidade” uma exposição madura, coerente e relevante, confirmando o Centro de Arte de S. João da Madeira como um espaço onde a fotografia continua a encontrar condições para pensar criticamente o território e o tempo presente.

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