“Um último cigarro ao som estridente da sirene da ambulância e volto para dentro. Não é com gosto que deixo cair a mão pesada sobre a minha mulher, não pensem que sou má pessoa e que retiro algum prazer dessa violência, pelo contrário, sou um tipo condenado e atormentado pelo remorso e pela culpa. É a minha mulher quem me obriga a ser este homem que não consigo olhar de frente ao espelho. Já me traiu mais do que uma vez, apesar de não ter encontrado nenhuma prova, sei bem que o fez. A mulher que transformou o meu ego nesta lata de cerveja amolgada de forma irrecuperável. Acho que é justo que ela acarte no lombo com as consequências. Um homem tem de defender a sua dignidade.”
Conjunto de vinte e sete crónicas editadas no jornal “Público” entre finais de 2023 e 26 de novembro de 2025, “Malparidos”, de Cláudia Lucas Chéu, assenta numa estratégia narrativa que expõe o leitor a um desconforto persistente. Ao eleger a figura masculina como matéria-prima de dissecação, mas também como voz que se auto-incrimina, se justifica e, por vezes, se revela, a autora faz uso de um olhar agudo e não isento de ironia para desmontar e reorganizar o masculino, transformando-o em matéria literária e, portanto, em objecto de poder. A fluidez da escrita assenta num fluxo torrencial, quase oral, a pontuação rarefeita como que a simular um pensamento em bruto e a criar um efeito de vertigem que aproxima o leitor dos vários narradores. “Zero à Direita”, a crónica que encerra o livro, funciona como chave de leitura, não apenas pelo enigma da expressão - “para se escrever sobre um homem ruim tem de se conhecer pelo menos um zero à direita” - mas pelo dispositivo metatextual que instala: o homem que fala sabe-se escrito por uma mulher, manipulado, desfigurado, reduzido a “caldo de tanso”.
Essa mesma fluidez, que em “Zero à Direita” se traduz num delírio lúcido, reaparece em registos diversos ao longo das crónicas, sempre sustentada por uma notável capacidade de mimese vocal. Em “A Minha Luta”, a autora encarna o discurso de radicalização com uma frieza perturbadora, mostrando como a fragilidade masculina pode ser capturada por narrativas de pertença e violência. Já em “A Nossa História”, desmonta o mito da virilidade militar através de uma ternura trágica, onde o amor entre homens emerge contra um pano de fundo de repressão e medo. Esta polifonia não é mero exercício estilístico: é o mecanismo através do qual Cláudia Lucas Chéu constrói um mosaico de masculinidades, onde cabem o agressor que se diz “querido”, o homem traído que se agarra à ideia de dignidade, o filho devorado por ciúmes maternos ou o bruto nostálgico de uma ordem patriarcal. Adaptada a cada voz sem nunca perder uma cadência própria, a escrita mostra-se elástica, feita de imagens incisivas e de uma ironia que facilmente se declara e que corrói por dentro.
Não se pense, porém, que este olhar sobre o homem seja unívoco ou panfletário. Se há uma exposição crua da estupidez, da violência e da auto-ilusão - como na brutalidade justificada de “Vocação para o Murro” ou no discurso fossilizado de “Gente que já não conhece a vida como ela é” - há também uma insistência na vulnerabilidade, no desejo de afecto, na incapacidade de corresponder a modelos herdados. É aqui que o livro ganha relevância num contexto em que as tensões de género se acentuam. A autora não absolve, mas também não simplifica. Ao dar voz a estes homens, permite que o leitor reconheça tanto o ridículo como o trágico, tanto a responsabilidade individual como os mecanismos culturais que a moldam. “Talvez todos nós, homens, sejamos apenas sombras no calor daquilo que uma mulher pariu ou escreveu”, frase que pode ler-se em “Zero à Direita”, acaba por condensar a ambiguidade central do livro, posicionando-se entre dependência e ressentimento, criação e anulação. “Malparidos” não oferece soluções nem reconciliações fáceis. Oferece, isso sim, um espelho desconfortável, onde o masculino surge como construção instável, tantas vezes patética, mas irredutivelmente humana.
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