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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

CINEMA: "Valor Sentimental" | Joachim Trier



CINEMA: “Valor Sentimental” / “Affeksjonsverdi”
Realização | Joachim Trier
Argumento | Eskil Vogt, Joachim Trier
Fotografia | Kasper Tuxen
Montagem | Olivier Bugge Coutté
Interpretação | Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas, Elle Fanning, Anders Danielsen Lie, Jesper Christensen, Lena Endre, Cory Michael Smith, Catherine Cohen, Andreas Stoltenberg Granerud, Øyvind Hesjedal Loven, Lars Väringer, Irma Trier, Ibi Trier
Produção | Maria Ekerhovd, Andrea Berentsen Ottmar
Noruega, Alemanha, Dinamarca, França, Suécia, Reino Unido, Turquia | 2025 | Drama | 133 Minutos | Maiores de 12 Anos
Vida Ovar – Castello Lopes
03 Fev 2026 | ter | 18:25


Valor Sentimental” assinala o regresso de Joachim Trier a um território que conhece intimamente: O das famílias marcadas por silêncios, questões mal resolvidas e uma enorme incapacidade de transformar a dor em linguagem comum. Depois do aclamado A Pior Pessoa do Mundo, o cineasta norueguês mantém-se fiel às suas obsessões temáticas, agora deslocando o foco do amor romântico para a herança emocional entre pais e filhos. A narrativa centra-se em Nora Borg (Renate Reinsve), actriz de teatro em crise, que reencontra o pai, Gustav Borg (Stellan Skarsgård), um cineasta prestigiado mas emocionalmente ausente, após a morte da mãe. O filme constrói-se maioritariamente dentro da casa de infância dos protagonistas, espaço carregado de memória e tempo, onde Trier articula passado e presente com uma realização rigorosa e contida. Um ambicioso segmento inicial, que condensa décadas de história familiar, estabelece desde logo a ligação entre criação artística e exploração emocional, sugerindo que, para Gustav, a arte sempre funcionou como um substituto imperfeito da intimidade. Embora consciente do seu peso simbólico, o filme demonstra uma apetência pela observação minuciosa dos gestos quotidianos em detrimento da grandiloquência dramática.

O conflito central adensa-se quando Gustav propõe a Nora que protagonize o seu novo filme - inspirado na vida da avó - e, perante a recusa da filha, entrega o papel a Rachel Kemp (Elle Fanning), uma actriz americana em ascensão. Esta escolha funciona como catalisador dramático e comentário mordaz sobre vaidade artística, nepotismo e cegueira emocional. Stellan Skarsgård compõe uma figura simultaneamente carismática e profundamente egoísta, evitando caricaturas fáceis: não é um vilão clássico, antes um homem incapaz de reconhecer o impacto das suas ausências. Renate Reinsve, numa interpretação deliberadamente contida, traduz a ansiedade e o ressentimento de Nora sem recorrer a explosões sentimentais, enquanto Inga Ibsdotter Lilleaas oferece um contraponto eficaz como Agnes, a irmã que canalizou a negligência paterna para uma vida de aparente estabilidade. Elle Fanning, por sua vez, surge como o elemento meta do filme: uma outsider diligente e sincera, cujo esforço quase académico para perceber a dor alheia expõe, com ironia, os limites da empatia artística. Trier filma estes encontros com precisão formal, recorrendo a enquadramentos frontais, cortes abruptos e uma fotografia límpida que reforça o distanciamento emocional das personagens.

Se Valor Sentimental não atinge o impacto existencial mais imediato de A Pior Pessoa do Mundo, também nunca parece verdadeiramente interessado em repetir a fórmula. O seu efeito é deliberadamente mais discreto, quase anti-climático, recusando a catarse fácil e optando por um desfecho ambíguo que sublinha a persistência da dor em vez da sua resolução. Trier sugere que o dano emocional raramente nasce de actos de crueldade conscientes, mas antes de perdas mal elaboradas, de ausências normalizadas e de uma confiança excessiva no tempo como agente de cura e salvação. Essa lucidez, por vezes desconfortável, confere ao filme um tom quase clínico, que pode soar frio ou excessivamente calculista. Ainda assim, mesmo quando se alonga ou parece demasiado consciente das suas próprias ideias sobre arte, memória e responsabilidade afectiva, o filme encontra redenção na empatia com que observa as suas personagens. Valor Sentimental afirma-se menos como uma grande declaração sobre a criação artística ou o legado familiar e mais como um retrato humano, irónico e melancólico, de pessoas que aprenderam a organizar a vida em torno das suas feridas. Num cinema frequentemente obcecado com revelações e grandes finais, essa recusa do conforto narrativo acaba por ser não apenas coerente, mas profundamente honesta.

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