“Que país é este que, cheio de injustiças, desigualdades sociais, com jovens a trabalhar eternamente a recibos verdes e velhos residindo em hospitais porque ninguém os quer, não tem revoltas nem novas revoluções, nem patuleias, nem distúrbios, nem desacatos, nem sarilhos e nem desordens públicas? É um país desarmado. Nunca haverá lutas. Os portugueses não se revoltam contra os poderosos. Assumem a sua triste situação, a sua pobreza hereditária, calam a boca, passam a outra coisa em vez de se revoltarem. É tempo de lhes dar bolota.”
Escrito por Manuel da Silva Ramos e publicado em Maio do ano passado, o livro narra a história de Pedro Ribeiro, um cosmólogo a recuperar da morte abrupta da mulher. Aceitando o desafio de um amigo, abandona Lisboa e instala-se na Beira Baixa, no quadrirreme Fundão, Penamacor, Penha Garcia e Castelo Branco, espaço que virá a funcionar como verdadeiro dispositivo narrativo. Não se trata de um cenário genérico, mas de uma geografia concreta onde pontificam, entre outros, a Tasca da Estação, a Feira de Queijos e Vinhos do Fundão, o Café Carrasco, a Papelaria Estudante, o Jornal do Fundão, a Quinta dos Termos, a esplanada do Café Portugal, o Museu do Queijo de Peraboa ou a Foto Rosel. Esta inscrição minuciosa do espaço ancora o romance num real reconhecível, afastando qualquer tentação alegórica. A deslocação do protagonista é, assim, também epistemológica: do pensamento abstracto da cosmologia para um mundo terrestre, onde a experiência humana resiste a fórmulas e previsões. A Beira Baixa impõe-se como personagem viva, feita de rotinas, conflitos e vozes, lugar onde o luto individual acabará por se cruzar com as muitas feridas colectivas ainda por sarar.
Mas há mais: em torno de Pedro Ribeiro gravita uma constelação humana heterogénea e instável, da cozinheira Moe Moe ao escritor Zeff Ryder, do cineasta Alejandro Pereyra ao pintor Gabriel AV, para além do sudanês Yahya Hussein, da ucraniana Yarina Skira, de Barbara Cowan e Pedro Silveira, dos cineastas do Fundão. Este coro de personagens reais compõe um retrato plural de uma comunidade atravessada por fluxos migratórios, tensões identitárias e precariedades várias. Manuel da Silva Ramos constrói aqui uma literatura de contacto, em que o intelectual não observa de fora, mas é continuamente interpelado. A ciência, enquanto promessa de ordem e racionalidade, confronta-se com um tempo em desalinho, onde “o mundo é mais vasto que os propósitos de um homem”. O romance questiona, assim, o lugar do saber num tempo de crise e o papel do sujeito esclarecido numa sociedade que parece ter perdido os seus mecanismos de revolta. “Que país é este”, pergunta o narrador, “cheio de injustiças (…) e que não tem revoltas nem novas revoluções?”. A resposta é amarga: um país desarmado, habituado à resignação, onde a pobreza se herda e o silêncio substitui o conflito.
A dimensão política do romance é assumida de forma frontal e constitui o seu eixo mais contundente. Através de episódios que oscilam entre o grotesco e a sátira - como o político “moderado” que manda encostar imigrantes à parede ou a caravana supostamente atacada a tiro que afinal apenas cruzou uma velha Zündapp - o autor desmonta os mecanismos da manipulação mediática e da retórica securitária. A crítica à deriva racista e xenófoba do poder é explícita: a imigração surge como bode expiatório de uma crise mais funda do capitalismo, ao mesmo tempo que os imigrantes são explorados como força de trabalho descartável. Discursos como o da “Renovação Nacional”, com a sua obsessão por “braços nacionais”, “úteros portugueses” e padres irrepreensíveis, expõem uma ironia feroz, onde o riso surge sempre colado ao desconforto. Há momentos em que o romance roça o ensaio político, mas essa opção faz parte do seu gesto de intervenção: a ficção recusa a neutralidade e convoca o leitor para um posicionamento ético, mesmo correndo o risco do excesso.
Apesar do desencanto que atravessa muitas páginas, “Os Cosmólogos Não Vão Para o Céu” não abdica de uma dimensão sensorial e quase celebratória do mundo vivido. Há um éden possível num naco de queijo amarelo da Beiralacte ou no queijo corno com uma bica curta, um zénite da felicidade no queimoso de Castelo Branco, nas chouriças e no paio do senhor Ferreira do Fundão, nas azeitonas negras da Atalaia do Campo ou no pão de Penha Garcia. Há humanidade nas bigas de bacalhau com ovo estrelado, no concurso de lançamento de caroço de cereja ou no tomar um Ben-u-Ron com um copo de vinho de Belmonte. É nesta atenção ao detalhe material, ao gesto simples e partilhado, que o romance encontra uma forma de esperança discreta. A escrita de Manuel da Silva Ramos é segura, por vezes deliberadamente excessiva, reflectindo o ruído do mundo que retrata. Incomoda mais do que consola, prefere perguntas a respostas e aposta numa literatura comprometida com o seu tempo. Uma literatura que, como o próprio romance sugere, sabe que os cosmólogos não vão para o céu, antes continuam profundamente enraizados na terra.
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