“O meu pai dizia sempre que me ia mostrar coisas nunca vistas: cabelos de árvores, animais extravagantes, lagostins da terra, pássaros com voz humana e, ao longe, se parássemos a escutar, poderíamos até ouvir o rei Lumumba que vivia lá na África mas que tinha uma voz tão poderosa, tão poderosa que chegava até aqui ao lago plano e metálico do parque da Curia. E assim parávamos e assim escutávamos, eu e ele, olhando-nos nos olhos, incrédulos, eu por uma razão, ele por outra. A voz profunda de Lumumba ouvia-se distintamente no meio do lago da Curia quando, ao fim da tarde, aqui neste canto ignorado do planeta, os jovens casais de namorados pedalavam nas gaivotas, entrelaçando as pontas dos dedos das mãos, deixando um rasto de beijos a desenhar amores líquidos.”
Publicado em finais do ano passado, “António Gedeão, Príncipe Perfeito” é muito mais do que uma biografia do eminente professor, pedagogo, historiador, cientista e poeta. Ele representa um abraço apaixonado vertido em texto, uma elegia serena escrita à sombra de uma memória luminosa. O projecto nasceu de um convite insistente da editora, ao qual a autora resistiu por muito tempo — talvez por temer o peso de revisitar a figura paterna, talvez por saber que a proximidade emocional podia toldar o rigor que sempre exigiu da sua escrita. Mas aceitou e ainda bem que o fez. O resultado é um exercício de transparência e de verdade: uma narrativa onde a filha, incapaz de se separar da figura do pai, se transforma em biógrafa, se despe de datas e acontecimentos exaustivos para se transformar num “espreitar documentado” , embora simples, da longa vida de Rómulo de Carvalho. Cada página constitui-se, assim, numa tentativa de compreender o homem por detrás do mito, o professor que via no ensino a pedra angular do progresso, o poeta que fez da ciência matéria de poesia.
Escrever sobre o pai é, para Cristina Carvalho, um duplo risco: o da intimidade e o da distância. A autora não procura monumentalizar o biografado, antes humanizá-lo, encontrando nos seus hábitos diários e nas suas hesitações a textura real do génio. Ao contrário da biografia histórica tradicional, de sofisticação palavrosa e personalizada, “a qual não deixa nem ler nem compreender o que se leu”, estamos aqui perante uma obra de natureza híbrida, entre o ensaio e o romance biográfico, na qual a autora arrisca a conciliação da imaginação com a realidade, da emoção com o método. O texto revela uma voz crítica e simultaneamente filial, um manancial de emoção e entusiasmo, que “foi explodindo em vida, em alegria e em esperança, apesar da saudade ser indelével”. O livro percorre a vida de Rómulo de Carvalho em direção à morte e às homenagens do seu 90.º aniversário, mas a cronologia serve apenas de pretexto para uma reflexão mais ampla sobre o valor do trabalho, o rigor como ética e o silêncio como forma de grandeza. A cada capítulo, a escritora esbate a fronteira entre observadora e participante, revelando o seu próprio lugar na herança afectiva e intelectual do pai.
Construído e preparado entre Janeiro e Julho de 2012, “dia a dia, hora a hora, sono a sono de noite com noites”, “António Gedeão, Príncipe Perfeito” aí está, “mancha de saudade” transformada em texto que seduz e emociona. Da sua leitura queda-nos um gesto de amor vertido em prosa, capaz de nos deixar suspensos entre a admiração e a melancolia. Admiração pelo homem que uniu ciência e poesia; melancolia por percebermos que figuras como Rómulo de Carvalho são cada vez mais raras no nosso horizonte cultural. A autora escreve com uma certa mágoa discreta, a de quem constata que António Gedeão, poeta que ensinou a ver beleza na química da vida, é hoje menos lembrado do que merece. Mas o livro é também uma advertência: num tempo de pressa e superficialidade, importa revisitar esses “Homens do Renascimento”, que mostraram que o saber é inseparável da sensibilidade. Cristina Carvalho cumpre assim uma dupla missão, a de filha e a de escritora. E, ao fazê-lo, resgata o ideal humanista, restituindo à memória um dos nossos vultos mais completos e proeminentes de sempre. O resultado é uma biografia, em igual medida, retrato e espelho: o de Rómulo de Carvalho, e o da própria autora que o soube amar com lucidez.
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