Páginas

sexta-feira, 12 de julho de 2019

LIVRO: "A Valsa dos Pecados"



LIVRO: “A Valsa dos Pecados”,
de Carlos Porfírio
Ed. Âncora Editora, Maio de 2017


Enquanto amante da literatura, não consigo encontrar nada pior do que um mau livro. Desconfortavelmente, recordo-lhe o primeiro encontro, a capa e o título, algumas palavras esparsas a propósito dos seus méritos, no caso concreto pela pena de quatro nomes consagrados que me escuso de enunciar. O compromisso assumido de me dedicar a ele por inteiro e, com o meu tempo e a minha dispobilidade, honrar o empenho que o escritor pôs na sua feitura. A desilusão ao perceber, à medida que avanço página a página, que a história não ultrapassa a fasquia da banalidade, a escrita é pobre, as figuras de estilo repetem-se e a vontade de abandonar a leitura cresce a cada instante.

Vem isto a propósito de “A Valsa dos Pecados”, de Carlos Porfírio, o qual li estoicamente até ao fim, num exercício próximo do masoquismo. Cobrindo um período de quatro décadas na vida de um homem simples que faz o seu caminho na alta roda da finança e dos negócios, o livro pode ser interpretado como um retrato de certas personagens que conhecemos das manchetes de jornais e revistas, nem sempre pelos melhores motivos. Do coração de África nos tempos da Guerra Colonial ao império empresarial que se espalha por quatro continentes, o percurso deste homem daria azo a um romance fantástico, não fora o caso de Carlos Porfírio se mostrar tão inábil na sua escrita, tão incapaz de conferir emoção ao protagonista do livro e às suas histórias de vida.

A acção avança e os momentos históricos sucedem-se, sem que daí se extraia qualquer valor narrativo. A revelação dos casos amorosos que atravessam a vida deste homem têm tanto de entusiasmante como a visão da chuva a bater nas vidraças. De tão escassamente detalhada, a ascensão económica e social da personagem principal cifra-se num mistério. Pior do que isso, a forma complacente como a figura deste homem nos é apresentada faz dele um indivíduo nebuloso e ambíguo, gerando no leitor o sentimento desconfortável de estar a investir tempo e paciência em matéria indecifrável. Hesitante e inconsistente, “A Valsa dos Pecados” é dos exercícios de leitura mais frustrantes de que tenho memória. Um equívoco para quem procura, num livro, um momento de prazer.

Sem comentários:

Publicar um comentário