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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Turn Around - Um olhar sobre a Coleção de Arte Fundação EDP” | Vários artistas



EXPOSIÇÃO: “Turn Around - Um olhar sobre a Coleção de Arte Fundação EDP”,
de Adriana Proganó, Ana Jotta, Bruno Cidra, Gabriel Abrantes, Joana Vasconcelos, João Ferro Martins, João Paulo Feliciano, João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, José Pedro Croft, Luisa Cunha, Maria Beatriz, Rodrigo Oliveira, Sérgio Pombo, Tiago Baptista (1.ª parte) e Álvaro Lapa, Ana Cardoso, Ana Hatherly, Ana Vieira, Ângelo de Sousa, António Areal, António Palolo, Augusto Alves da Silva, Diogo Pimentão, Eduardo Batarda, Fernanda Fragateiro, Fernando Calhau, Gonçalo Barreiros, Helena Almeida, João Onofre, João Queiroz, Joaquim Bravo, Jorge Martins, Jorge Molder, José Almeida Pereira, José Barrias, José Loureiro, José Pedro Cortes, José Pedro Croft, Julião Sarmento, Leonor Antunes, Lourdes Castro, Luísa Jacinto, Manuel Baptista, Manuel Rosa, Maria Beatriz, Maria Capelo, Maria José Oliveira, Mariana Gomes, Noronha da Costa, Paulo Nozolino, Pedro Calapez, Rosa Carvalho, Rui Chafes, Rui Sanches, Salomé Lamas, Sara Bichão, Sara Chang Yan, Susanne S. D. Themlitz (2.ª parte)
Curadoria | João Pinharanda, Margarida Almeida Chantre, Sérgio Mah
MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia
11 Fev 2026 > 25 Jan 2027 (1.ª parte)
29 Abr 2026 > 11 Jan 2027 (2.ª parte)


“Turn Around – Um Olhar sobre a Colecção de Arte Fundação EDP” parte de uma premissa tão simples quanto exigente: olhar para uma colecção é também olhar para a história que a tornou possível. Reunindo cerca de noventa obras de cinquenta e oito artistas, a exposição percorre mais de seis décadas de criação contemporânea em Portugal, mas recusa a confortável tentação de se apresentar como uma narrativa linear. Em vez de uma história arrumada por gerações, movimentos ou cronologias, propõe uma sucessão de encontros, atritos e reverberações. É nesse confronto que a exposição ganha espessura: entre a herança conceptual e as linguagens mais recentes, entre o corpo e a sua ausência, entre o negro e a cor, entre a matéria e aquilo que nela se procura fazer desaparecer. A voz de Luisa Cunha, que recebe o visitante, funciona quase como uma senha para esse percurso de avanços e recuos, enquanto obras de Jorge Molder, Rui Chafes, Rui Sanches ou Julião Sarmento estabelecem desde logo uma atmosfera de estranheza e inquietação. O mérito está menos na dimensão da mostra do que na capacidade de fazer uma colecção institucional funcionar como matéria crítica, revelando continuidades inesperadas e, sobretudo, as fracturas de uma arte contemporânea portuguesa que nunca coube inteiramente numa única narrativa.

A arquitectura da Central Tejo desempenha um papel que vai muito além do de simples cenário. Na galeria Baixa Pressão Norte, onde a antiga estrutura industrial se encontra domesticada pela disposição museológica das salas, as obras podem ser vistas com maior concentração e num regime de relações mais próximo do habitual. Já na Baixa Pressão Sul, o edifício regressa à condição de presença física: as estruturas de ferro, a escala e a memória de um lugar concebido para a produção entram em choque com objectos que pertencem a uma outra economia, a da representação, do desejo e da crítica. É particularmente feliz a opção por deixar que esse confronto produza tanto tensão como humor. A cabina de marinheiros de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, o kitsch produtivo de Joana Vasconcelos, o monumental e absurdo “Marmitex, Guggenheim ibérico”, de Rodrigo Oliveira, ou o diálogo impossível entre dois candeeiros em João Paulo Feliciano mostram como a arte pode ocupar o espaço industrial sem o neutralizar, ainda que a abundância de propostas ameace nivelar diferenças e transformar o percurso numa sucessão de estímulos. É um risco inerente a qualquer exposição de colecção, mas aqui a própria arquitectura ajuda a contrariá-lo: obriga o olhar a mudar de escala, de ritmo e de disposição.

O título “Turn Around” ganha então um sentido mais amplo do que o de simples instrução ao visitante. Mandar virar, voltar atrás, olhar de novo: eis o gesto que melhor define uma exposição onde a memória não é apresentada como património imóvel, mas como algo que se reconfigura a cada aproximação. As obras mais antigas não surgem como relíquias de uma história já encerrada, nem as mais recentes como confirmação automática de uma suposta evolução. António Palolo pode dialogar com Luísa Jacinto; Lourdes Castro encontra ecos em pesquisas posteriores sobre o corpo, a paisagem ou a linha; Ana Jotta e José Pedro Croft continuam a pôr em causa a dignidade convencional do objecto artístico. E é justamente nessa instabilidade que a exposição se torna mais interessante. A colecção da Fundação EDP, com as suas cerca de duas mil e quinhentas obras, não é aqui celebrada apenas pela dimensão ou pela representatividade: é posta à prova. O que esta selecção demonstra é que uma colecção só ganha verdadeira relevância quando deixa de ser inventário e passa a questionar. Entre o rigor histórico e a liberdade associativa, “Turn Around” consegue, na maior parte do tempo, fazer isso: devolver as obras ao presente, onde podem voltar a incomodar, surpreender e contrariar aquilo que julgávamos já saber sobre elas.

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