LIVRO: “Perdeu-se Relógio de Senhora”,
de Alice Brito
Edição | Sofia Fraga
Ed. Companhia das Letras, Maio de 2026
“Não devemos ter sobre as pessoas juízos antecipados. Os estereótipos são a coisa mais obscuramente enganadora que há. Um militante clandestino do Partido Comunista, deste tempo contido na sexta década do século, não tinha de andar sempre com ar de espião, de boca cosida, ar carrancudo, cara de poucos amigos. É claro que eram pessoas com as limitações próprias de uma clandestinidade sofrida e brutal. Andavam no subterrâneo dos dias, em contínua dissimulação, sempre acompanhados pelo medo. Estavam as vinte e quatro horas da rotação da Terra naquela posição de aviso, cautelar e desconfiada. Mas eram pessoas tristes e alegres. Como as outras. Tinham fome e tinham sede. Como as outras. Havia gente de bom carácter e também havia gente que era uma peste. Havia criaturas sinceras, límpidas, dispostas a tudo e havia oportunistas do piorio. Como, de resto, em toda a Humanidade. Parte desse pessoal da militância clandestina era feito de figuras fascinantes e aventureiras e outra parte era uma grandessíssima seca. Havia criaturas bonitas e feias.”
Há escritores que escolhem narrar os acontecimentos que determinam a marcha do Mundo e há aqueles que preferem escutar o rumor discreto das vidas anónimas, onde o peso da História se faz sentir com maior violência. “Perdeu-se Relógio de Senhora”, de Alice Brito, está neste segundo caso. Recuperado de uma senha clandestina utilizada pelo Partido Comunista para assinalar a prisão de um militante e activar uma cadeia de procedimentos de segurança, o enigmático título esconde, ele próprio, um romance onde a memória, a resistência e, sobretudo, o papel da mulher durante a ditadura, adquirem uma relevância histórica que só quem viveu os tempos do fascismo consegue abarcar na totalidade. Conduzindo o leitor por um Portugal cinzento, submetido ao Estado Novo, onde o medo era uma presença quotidiana e a liberdade uma aspiração silenciosa, Alice Brito socorre-se de três protagonistas oriundas de mundos distintos, que o acaso reunirá num apartamento da Duque d'Ávila, em Lisboa, pouco antes da Revolução de Abril. É através delas que a autora constrói um retrato social que ultrapassa largamente o destino individual de cada personagem, escapando ao panfleto ideológico e enveredando por um romance cuja ficção se alimenta da investigação histórica e da observação rigorosa da condição humana. O quotidiano ganha espessura narrativa, as pequenas escolhas tornam-se actos de sobrevivência e a intimidade revela-se um dos territórios onde a repressão exercia a sua autoridade mais implacável.
O maior mérito de “Perdeu-se Relógio de Senhora” reside na forma como ilumina essa violência invisível, mas latente. Em vez de privilegiar os grandes episódios da resistência política, Alice Brito fixa o olhar na disciplina moral imposta às mulheres, na educação, na sexualidade, nas convenções familiares e na submissão social transformada em norma. O fascismo aparece menos como uma sucessão de acontecimentos históricos do que como um sistema infiltrado nos gestos, na linguagem e nas expectativas de uma sociedade inteira. A experiência da autora enquanto advogada parece reflectir-se na atenção aos factos concretos e na capacidade de compreender as múltiplas formas de opressão, ao invés de aprisionar a escrita numa rigidez documental tendente a ceder ao estéril e ao fastidioso. Pelo contrário, a prosa mantém uma fluidez que permite às personagens respirarem para lá da sua função simbólica. Ainda que representem diferentes gerações e percursos sociais, nenhuma delas se reduz a um qualquer arquétipo; todas carregam contradições, desejos, medos e ambiguidades que lhes conferem rigor e autenticidade. A memória histórica surge, assim, filtrada pela experiência individual, tornando-se mais próxima e mais perturbadora. É essa conjugação entre verdade, sensibilidade e construção romanesca que impede o livro de cair na nostalgia ou na simples reconstituição de época, conferindo-lhe uma actualidade inesperada.
Mais do que revisitar um passado cada vez mais confinado a dois parágrafos num qualquer manual escolar, “Perdeu-se Relógio de Senhora” interroga o presente e recorda que o esquecimento é terreno fértil para o regresso de discursos autoritários ou, quem sabe, de três ou mais salazares. A preocupação de Alice Brito com a erosão da memória colectiva atravessa discretamente toda a obra e confere-lhe um alcance político sem sacrificar a qualidade literária. A chegada do 25 de Abril representa o desfecho luminoso de uma longa travessia, mas não dissolve as marcas deixadas por décadas de silêncio, medo e desigualdade. Nesse sentido, o romance não celebra apenas a conquista da liberdade; convida igualmente o leitor a compreender o preço que ela teve e a responsabilidade de a preservar. Sem se furtar à necessidade de uma retórica militante - deliciosas as passagens em que a autora assume o papel de personagem, opinando a seu bel-prazer -, Alice Brito demonstra que a literatura continua a ser um dos lugares privilegiados para pensar a História através das pessoas comuns, devolvendo voz àquelas que, as mais das vezes, foram apagados dos relatos oficiais. O resultado é um romance sólido, humanamente comovente e politicamente pertinente, cuja leitura se revela tão necessária pela evocação do passado como lúcida pelo diálogo que estabelece com as inquietações do presente.
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