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sexta-feira, 31 de julho de 2026

EXPOSIÇÃO: “Sem Terra à Vista”



EXPOSIÇÃO: “Sem Terra à Vista”
Vários artistas
Curadoria | Paula Cabaleiro
Centro de Arte Oliva
18 Abr 2026 > 24 Jan 2027


Habitar o presente, tal parece ser o desígnio de “Sem Terra à Vista”, exposição patente até 24 de Janeiro do próximo ano no Centro de Arte Oliva. A partir de uma nova leitura da Colecção Norlinda e José Lima, a curadora Paula Cabaleiro constrói um percurso onde a arte não oferece respostas, antes convoca o visitante para um território de inquietação permanente. O título, apropriado do derradeiro livro de Charles Simic, funciona menos como metáfora marítima do que como diagnóstico civilizacional, colocando em destaque a ausência de horizonte, a erosão das referências colectivas e a sensação de deriva que atravessa o nosso tempo. A força da exposição reside precisamente na recusa de uma narrativa fechada, na forma como se privilegiam relações de tensão, afinidades inesperadas e contrapontos que fazem coexistir gerações, geografias e linguagens distintas. A extraordinária amplitude da colecção - uma das mais relevantes do panorama privado português - revela-se aqui como instrumento crítico, permitindo que autores portugueses dialoguem naturalmente com grandes nomes da cena internacional, sem hierarquias artificiais. O resultado é uma exposição que recusa a contemplação passiva em favor de uma experiência intelectualmente exigente, apelando à circulação de ideias e à capacidade da imagem para produzir pensamento.

Esta leitura manifesta-se na própria arquitectura expositiva, cujos núcleos se sucedem sem fronteiras rígidas, permitindo que cada obra prolongue ou contradiga a anterior. A presença de artistas como Paula Rego, Christian Boltanski, Cindy Sherman, Leon Golub, Chéri Samba, Gonçalo Mabunda ou Mónica de Miranda evidencia diferentes formas de abordar a violência, a memória, o corpo, a identidade ou a herança colonial, enquanto autores portugueses como Daniel Blaufuks, Helena Almeida, João Louro, Rui Chafes, Pedro Cabrita Reis ou José Pedro Croft oferecem perspectivas que oscilam entre a introspecção, a crítica política e a reflexão sobre a condição humana. De forma sensível, Paula Cabaleiro evita que estes temas se transformem num catálogo de causas contemporâneas, mbora a exposição convoque questões como a guerra, as migrações, o avanço dos discursos extremistas, a devastação ambiental ou a desinformação. Fá-lo através da complexidade própria da criação artística, recusando tanto a ilustração como a retórica panfletária. Cada obra mantém a sua autonomia formal e conceptual, contribuindo para um discurso colectivo assente, em larga medida, na ambiguidade. Nessa tensão entre beleza, desconforto e pensamento encontra “Sem Terra à Vista” a sua maior consistência crítica.

Num momento em que muitos projectos curatoriais procuram responder à actualidade através de enunciados excessivamente programáticos, “Sem Terra à Vista” distingue-se por confiar na inteligência do público e na capacidade das obras para permanecerem abertas à interpretação. A Colecção Norlinda e José Lima confirma-se, uma vez mais, como um acervo cuja diversidade permite sucessivas revisitações, revelando novas leituras sem esgotar os seus significados. A exposição demonstra igualmente a maturidade de Paula Cabaleiro enquanto curadora, capaz de construir um discurso sólido sem sacrificar a singularidade de cada artista nem reduzir a arte a instrumento ilustrativo de um argumento político. O visitante sai com poucas certezas e inúmeras perguntas — talvez o sinal mais evidente de uma exposição bem conseguida. Perante um mundo fragmentado, onde o ruído mediático tende a simplificar a realidade e a neutralizar o pensamento crítico, esta mostra recorda que a arte continua a ser um dos raros lugares onde a complexidade não constitui um obstáculo, mas uma necessidade. Sem oferecer promessas de redenção, “Sem Terra à Vista” aponta para uma possibilidade mais modesta, mas talvez mais urgente: recuperar o exercício da dúvida, da memória e da imaginação como formas de resistência perante um horizonte onde, efectivamente, continua a não haver terra à vista.

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