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quinta-feira, 30 de julho de 2026

EXPOSIÇÃO: "Horror Vacui"



EXPOSIÇÃO: “Horror Vacui”
Vários artistas
Curadoria | Marta Jecu
Centro de Arte Oliva
21 Mar 2026 > 24 Jan 2027


Há um aparente paradoxo em “Horror Vacui”, patente no Centro de Arte Oliva: apesar da extraordinária densidade formal das cerca de noventa esculturas reunidas, a exposição não se limita a falar de excesso, mas sobretudo daquilo que esse excesso procura conter. É pelo menos isso que a curadoria de Marta Jecu parece querer dizer ao partir do conceito clássico de “horror vacui” para construir uma reflexão onde o vazio deixa de ser apenas um problema estético e se converte numa inquietação existencial. Humanas, animais, híbridas, mecânicas, espirituais ou monstruosas, as figuras ocupam o espaço como manifestações de uma necessidade ancestral de dar corpo ao invisível. Provenientes da Colecção Treger Saint Silvestre, um dos mais relevantes acervos europeus dedicados à criação autodidacta, popular e marginal, estas obras recusam uma leitura disciplinada pela história oficial da arte. O seu território é outro: o da imaginação compulsiva, da crença, da memória, da obsessão e do impulso criador enquanto necessidade vital. O percurso expositivo transforma-se, assim, numa sucessão de encontros com entidades que parecem existir num limiar entre o objecto escultórico e o organismo vivo, convocando o visitante para uma experiência onde a estranheza se instala sem nunca se resolver plenamente.

O grande mérito da exposição reside na forma como evita reduzir estas obras à categoria confortável da excentricidade ou da curiosidade pura e simples. Muitos dos autores representados - de Rosa Ramalho a Reinata Sadimba, de José de Guimarães a Serge Jolimeau, passando por Giovanni Batistta Podestá, Michel Gouery, Poteau Dieudonné ou Susanne Themlitz - pertencem a universos criativos profundamente distintos, tanto geográfica como culturalmente. Contudo, a montagem propõe um diálogo que privilegia afinidades sensíveis em detrimento de genealogias académicas. A matéria gasta, a presença manual, a imperfeição assumida e a expressividade quase ritual aproximam trabalhos produzidos em contextos radicalmente diferentes, revelando uma linguagem comum onde o corpo funciona como recipiente de medos, desejos, memórias e forças invisíveis. Relegando para segundo plano quaisquer narrativas cronológicas ou estilísticas, Marta Jecu preocupou-se em organizar um campo de tensões onde cada escultura parece responder à anterior, ampliando uma sensação de contágio visual que reforça a ideia de comunidade imaginária. O resultado é uma paisagem povoada por alter egos, máscaras e presenças tutelares que desafiam as categorias tradicionais da arte contemporânea e reforçam a singularidade de cada gesto autoral.

Se, por um lado, “Horror Vacui” afirma uma clara resistência aos valores modernistas da depuração, do silêncio e da síntese, por outro evita transformar essa oposição numa mera declaração programática. O excesso aqui apresentado não é sinal de acumulação gratuita; manifesta-se antes como estratégia de sobrevivência perante a incerteza do mundo. A presença do texto de Gonçalo M. Tavares, difundido sob a forma de peça sonora ao longo do percurso, reforça essa dimensão filosófica, funcionando menos como interpretação das obras do que como prolongamento da sua atmosfera inquietante. Há, em toda a exposição, uma consciência de que estas figuras não representam simplesmente personagens, mas modos de habitar o desconhecido. É nessa capacidade de suspender fronteiras entre arte popular, arte bruta, criação contemporânea e imaginário colectivo que reside a força desta exposição. Mais do que celebrar a exuberância formal das esculturas ou desvendar o seu significado, “Horror Vacui” convida a pensar o excesso como condição humana: uma tentativa incessante de preencher o vazio com narrativas, símbolos e corpos, sabendo de antemão que nenhum deles será suficiente para o eliminar.

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