Patente ao público no Museu Nacional Soares dos Reis, “Desenhos do Cinismo e da Melancolia”, de Ana Vidigal, encontra em Camilo Castelo Branco não tanto um pretexto literário, mas uma matéria de trabalho. Integrada no evento literário e cultural BABELL, a exposição reúne vinte e duas obras de pequenas dimensões que recusam a solenidade do objecto artístico e se aproximam antes da intimidade de uma página, de um apontamento ou de algo ciosamente guardado. Ana Vidigal não ilustra Camilo: lê-o, desmancha-o e volta a escrevê-lo através de imagens. O seu gesto é menos o de quem traduz literatura para as artes plásticas do que o de quem procura descobrir, na literatura, aquilo que ainda pode ser deslocado, rasurado e refeito. Nessa operação, adquire a exposição espessura, retirando o universo camiliano daquilo que se aceita como património intocável e e deslocando-o para um território de apropriação, onde a melancolia e o cinismo do título se encontram com o humor, a ironia e a memória pessoal da artista. Desta forma, colagem, desenho e pintura convivem em composições onde a palavra surge como memória, vestígio e provocação.
Há, porém, uma outra leitura que se impõe e que talvez seja uma das mais felizes dimensões da exposição: cada obra é apresentada de modo a poder ser vista dos dois lados. O suporte deixa de ser mero intermediário e passa a integrar a obra, revelando-se aquilo que a sustenta, aquilo que foi escolhido, reaproveitado ou transformado para a receber. O visitante é assim convidado a abandonar a perspectiva frontal e a percorrer o objecto, a olhar para trás, para dentro, para aquilo que normalmente permanece oculto. É uma escolha expositiva que corresponde profundamente à própria prática de Ana Vidigal, feita de acumulações, fragmentos, restos e materiais que carregam consigo outras vidas. Se, como a artista já afirmou, a pintura pode ser tudo aquilo que se cola, aqui também a exposição parece dizer que tudo aquilo que se esconde pode fazer parte da leitura. O verso não é complemento do anverso, antes outra entrada na obra, outra narrativa possível. E esse movimento físico do espectador acaba por reproduzir o movimento intelectual que os desenhos exigem.
É talvez por isso que estas pequenas peças adquirem uma dimensão maior do que a sua escala faria supor. Em vez de oferecerem uma leitura única, Ana Vidigal constrói objectos abertos, onde imagem, palavra, matéria e memória se contaminam mutuamente. A referência a Camilo é reconhecível, mas nunca fechada; serve para convocar uma tradição literária e, simultaneamente, para a interrogar. A artista transforma a memória em matéria plástica e o reaproveitamento dos suportes numa forma de pensamento. Nada é inteiramente descartado; nada se apresenta sem história. Há aqui uma dimensão autobiográfica, mas também política, na atenção concedida às coisas menores, aos restos, às narrativas laterais e às vozes que sobrevivem nas margens. “Desenhos do Cinismo e da Melancolia” vale, por isso, menos como exposição sobre Camilo do que como encontro entre duas formas de escrita: a do romancista que construiu personagens, paixões e desenganos, e a da artista que, décadas depois, os desmonta para lhes devolver outras possibilidades de leitura. O resultado é uma exposição que pede tempo - e que recompensa quem aceita olhar duas vezes.
Sem comentários:
Enviar um comentário