EXPOSIÇÃO: “Terra Poética”,
de Anna Maria Maiolino
Curadoria | João Pinharanda e Sérgio Mah
MAAT - Museu de Arte Arquitetura e Tecnologia
25 Mar > 31 Ago 2026
“As instalações da série ‘Terra Modelada’ são obras em processo, estruturadas por armazenamento de formas simples, produtos da ação do gesto, que, por ser natureza, não se repete [...]. Estas primas-formas têm a medida da mão que as molda - a medida do homem - e lembram-nos certos aspetos de comemorações, de rituais. O ancestral é revivido no fazer primeiro, no ritual do trabalho apresentado.”
Anna Maria Maiolino
Visita-se “Terra Poética” como quem atravessa um território. Na Galeria Oval do MAAT - Museu de Arte Arquitetura e Tecnologia, Anna Maria Maiolino transforma a arquitectura num campo de forças onde desenho, escultura e instalação se contaminam, fazendo do barro não apenas uma matéria, mas uma espécie de linguagem anterior às palavras. A exposição reúne obras realizadas entre 1975 e 2025 e percorre mais de cinco décadas de uma prática que nunca separou o corpo da memória, nem a experiência íntima da dimensão política. Nascida em Itália em 1942, emigrada para a Venezuela e depois para o Brasil, Anna Maria Maiolino traz para a obra uma experiência de deslocação que não é meramente biográfica: é uma condição de existência. Desde a participação na Nova Objectividade Brasileira, em plena ditadura militar, até à consagração internacional, o seu trabalho tem procurado formas de dar corpo ao que resiste à representação. O Leão de Ouro de carreira atribuído na Bienal de Veneza de 2024 veio reconhecer uma trajectória singular, mas “Terra Poética” mostra que a importância de Maiolino está menos na consagração do que na radicalidade com que continua a interrogar a matéria.
O percurso começa nas paredes, onde “Tempestade de Ideias” reúne mais de uma centena de desenhos produzidos entre 1990 e 2025. São rabiscos, esquemas, impulsos, pequenas arquitecturas ainda por nascer: um inventário aparentemente desordenado que funciona, afinal, como uma cartografia do pensamento. A artista não apresenta a escultura como objecto acabado, mas como possibilidade, processo e hesitação. Os desenhos são sementes de formas, enquanto as pequenas esculturas e fotografias introduzem outras escalas de percepção. Na arena, porém, é a argila que toma conta do espaço. As obras da série “Terra Modelada”, iniciada em 1993, foram concebidas para a galeria e produzidas no local, prolongando uma investigação em que o gesto elementar de amassar, enrolar, dividir, acumular, adquire uma dimensão quase ritual. A matéria é moldada pela mão, mas também pela passagem do tempo: a argila crua desidrata, muda de cor, endurece e aproxima-se da pedra. O que parecia instável ganha permanência sem deixar de anunciar a sua própria transformação. Nessa tensão entre nascimento e ruína, entre o provisório e o ancestral, encontra Maiolino uma das suas imagens mais poderosas.
Há algo de profundamente corporal em “Terra Poética”. As formas remetem para alimentos, entranhas, sementes, órgãos, respirações; parecem guardar no seu interior uma memória doméstica e arcaica, como se a escultura pudesse regressar ao instante inaugural em que fazer e sobreviver eram o mesmo gesto. O feminino surge menos como tema do que como experiência incorporada: a mão que trabalha, a matéria que cede, a repetição paciente de tarefas tradicionalmente associadas ao espaço doméstico e que a artista desloca para o território da arte. Mas seria redutor ler Maiolino apenas através de uma chave feminista. O que a exposição propõe é uma política mais funda da matéria, onde o corpo individual se encontra com o colectivo e onde a experiência migrante se transforma numa procura de raízes. “Terra Poética” não é, afinal, uma exposição sobre a terra, mas sobre aquilo que ela nos ensina: que toda a forma é provisória, que todo o corpo é matéria em transformação e que, entre a mão e o mundo, existe sempre a possibilidade de começar de novo. É nessa simplicidade - simultaneamente ancestral e contemporânea - que reside a força de uma artista cuja obra continua a transformar o gesto mais elementar numa pergunta sobre a existência.
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