CONCERTO: radio.string.quartet
Com | Bernie Mallinger (violino, sansula, voz, electrónica), Cynthia Liao (viola, voz), Sophie Abraham (violoncelo, garrafas, voz), Igmar Jenner (violino, electrónica)
FIME - 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho - Academia
03 Jul 2026 | sex | 21:30
Não saíram goradas as expectativas daqueles que, na noite da passada sexta-feira, acorreram ao Auditório de Espinho confiantes na possibilidade de assistir a um dos momentos mais singulares da presente edição do FIME. Sediados em Viena, os radio.string.quartet têm vindo, desde a sua fundação, a afirmar-se como uma das formações mais inventivas do panorama europeu, desafiando sistematicamente as fronteiras entre a música erudita, o jazz, a improvisação e a electrónica. Ao contrário de muitos quartetos contemporâneos que se limitam à interpretação do repertório clássico, o agrupamento austríaco parte das obras originais para as recriar, cruzando épocas, linguagens e referências, acrescentando-lhes novas camadas de significado sem jamais perder de vista a sua identidade. O resultado é um exercício de rara inteligência musical, onde imaginação, rigor técnico, bom gosto e um subtil sentido de humor convivem em absoluto equilíbrio. Em perfeita sintonia com o espírito do FIME, os radio.string.quartet ofereceram um concerto marcado pela imprevisibilidade e pela inovação, envolvendo uma plateia que faz do eclectismo uma marca da sua escuta e que respondeu, desde os primeiros compassos, com manifesta curiosidade e entusiasmo às sucessivas surpresas de um programa que recusou, do princípio ao fim, qualquer forma de convencionalismo.
A primeira parte do concerto recuperou o mais recente trabalho discográfico do quarteto, “aERO – four seasons VOL.1”, revisitando o universo das “Quatro Estações”, de Antonio Vivaldi. Sem comprometer ou desfigurar as linhas melódicas ou a arquitectura harmónica da obra original, Bernie Mallinger, Igmar Jenner, Cynthia Liao e Sophie Abraham expandiram-lhe o horizonte expressivo através de uma abordagem profundamente criativa, onde a improvisação assumiu um papel central. Muito distante da imagem tradicional dos músicos imóveis perante a partitura, o quarteto revelou uma comunicação permanente entre os seus elementos, transformando cada olhar, cada gesto e cada silêncio em matéria musical. A exuberância rítmica da “Primavera” e do “Verão” alternou com momentos de grande introspecção, desenhando um percurso sonoro pelo interior de cada um dos presentes, non qual avultou uma notável riqueza tímbrica e emocional. A utilização discreta da electrónica permitiu ampliar as sonoridades e multiplicar as possibilidades expressivas do conjunto, sem nunca ocultar a beleza natural dos instrumentos acústicos. O resultado foi uma leitura simultaneamente fiel e ousada, capaz de revelar facetas inesperadas de uma obra tantas vezes escutada, confirmando a excepcional maturidade artística do quarteto.
O ambiente barroco prolongou-se na segunda parte do programa com “B:A:C:H: – like waters”, trabalho editado em 2022 e inspirado na célebre “Sonata para Violino em Sol menor”, de Johann Sebastian Bach. Mais do que uma simples adaptação, a proposta dos radio.string.quartet mostrou-se capaz de traduzir a linguagem do compositor para o século XXI através de um discurso profundamente pessoal, preservando intacta a essência da escrita bachiana, ao mesmo tempo que a envolvia numa estética próxima do jazz contemporâneo e da música experimental. A metáfora da água, fio condutor de toda a obra, conduziu o público numa narrativa musical que partiu da luminosidade de “High Altitude Euphoria”, percorreu sucessivas paisagens sonoras e culminou num arrebatador “Presto”, onde a corrente inicial se transformou numa autêntica torrente de energia e virtuosismo. Ficou assim demonstrado que a tradição pode permanecer bem viva quando colocada nas mãos de intérpretes capazes de dialogar com ela sem receios nem excessiva reverência. O aplauso prolongado da assistência justificou um encore particularmente feliz, com “Song – Ode an den Freud”, do álbum Radiodream (2011), encerrando uma noite em que a liberdade criativa e a excelência interpretativa caminharam lado a lado e confirmaram os radio.string.quartet como uma das propostas mais estimulantes da actual cena musical europeia.
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