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sábado, 4 de julho de 2026

LIVRO: “Na Tua Mão” | Hélder Teixeira Aguiar



LIVRO: “Na Tua Mão”,
de Hélder Teixeira Aguiar
Edição | Manuel S. Fonseca
Ed. Gradiva Publicações, Maio de 2026


“O estampido fez-me desabar para trás. Porém, o som mais definitivo foi outro. O Bakari a desabar ao meu lado. Como um saco atirado ao chão. Uma coisa desprovida de serventia, arremessada para o lodo. Tal como o Neomar Lander, cuspido para o asfalto do país que tentava salvar aos dezassete anos, o Bakari foi morto por não ter vinte dólares para uma maçã. A pulseira da Clarisse, de onze anos como o Gonzo, não aguentou mais e rebentou. As contas espraiaram-se como estrelas coloridas sobre a terra húmida. Uma delas, pequenina e vermelha, desceu por um fino carreiro. Apreciei-a a rolar, devagar, cada vez mais devagar, como se o tempo inteiro do mundo a soprasse, até se deter aos meus pés. Vinte dólares. Uma maçã. Seis irmãos à espera. Dobrei-me e apanhei a conta. Apertei-a até sentir que me cortava. Até sentir alguma coisa.”

Os livros não chegam para explicar o mundo, mas talvez possam ensinar-nos a habitá-lo de uma outra forma. “Na Tua Mão” é um desses livros. Na sua origem está um sobressalto de consciência: a descoberta de Darién, um lugar onde a floresta deixa de ser paisagem para assumir o rosto de um juízo permanente sobre a humanidade. À voz daqueles que insistem em chamar a atenção para os riscos que correm os migrantes que se aventuram “na mais perigosa selva da América Latina”, decidiu o médico e escritor Hélder Teixeira Aguiar unir a sua, não com o ruído da indignação, antes com a escuta demorada da literatura. Desse labor metódico resulta um livro que soma, de forma equilibrada, documentação e emoção. Assente numa investigação rigorosa - ONU, Médicos Sem Fronteiras, Human Rights Watch, testemunhos, vídeos, grupos de migrantes -, o romance socorre-se dos factos para sustentar as personagens, enquanto a estatística se dissolve em rostos, nomes, gestos e perdas. Mais do que um espaço geográfico, a selva torna-se entidade moral, uma força que põe continuamente à prova aquilo que ainda resta de humano nos que a percorrem. E, por extensão, em cada um de nós, leitores.

Contar uma tragédia global através de um vínculo íntimo revela-se uma opção determinante para a dimensão ética e moral do livro. A narrativa converge na relação entre os irmãos Rúben e Gonzalo, um verdadeiro “exército de dois” que funciona como espelho da fraternidade, da infância roubada e da resistência. É desse movimento de aproximação que nasce o romance e se espalha por mais de trezentas páginas. Hélder Teixeira Aguiar procura caminhar com os migrantes mais do que falar sobre eles, restituindo rosto ao invisível e devolvendo as palavras a quem tantas vezes apenas conheceu o idioma da perda. Essa dimensão afectiva impede o romance de cair na espectacularização da violência: cada morte importa porque encontra relação numa conversa, numa piada, numa música, num rosto, num sonho. A escrita acompanha esse gesto com uma serenidade invulgar. Nunca cede ao excesso porque sabe que há dores que recusam qualquer amplificação. Prefere a luz breve dos detalhes, como quem acende uma chama na escuridão: uma pulseira desfeita na lama, um desenho partilhado junto à fogueira, sete mulheres que, no coração da selva, encontram tempo para cuidar dos cabelos umas das outras.

A linguagem é talvez o aspecto mais distintivo do romance. Hélder Teixeira Aguiar escreve com uma depuração invulgar, fazendo oscilar o texto entre frases de grande densidade poética e uma oralidade espontânea, onde convivem o português e o espanhol venezuelano sem que um anule o outro. “Pajúo”, “chamo”, “pana”, “naguará” inscrevem-se com naturalidade no discurso, tal como “saudade”, “fado” ou “desenrascar”. Mais do que um recurso estilístico, esta convivência linguística traduz uma identidade híbrida, feita de duas pátrias, duas memórias e duas formas de sentir. A belíssima reflexão sobre “o mar” e “la mar” é disso um exemplo maior. Há emoções que só encontram morada numa determinada palavra, como se a linguagem transportasse consigo uma maneira própria de respirar o mundo. Também por isso a literatura atravessa estas páginas com naturalidade, ao lado da música, dos poemas e dos livros que acompanham os viajantes como um último abrigo. E mesmo quando tudo lhes é retirado, permanece aquilo que aprenderam a amar e que constitui a mais discreta forma de esperança: o saber que a verdadeira bagagem nunca cabe dentro de uma mochila.

Outro elemento estruturante é o imaginário dos videojogos. O mundo dos dois irmãos é continuamente interpretado como um jogo sem manual de instruções: níveis, modo iniciante, non-player character, vidas limitadas, boss final, nível secreto, bugs, botão de pausa, comando. Hélder Teixeira Aguiar não lança mão deste recurso como se de um simples artifício geracional se tratasse, antes como linguagem através da qual duas crianças conseguem enfrentar um universo absurdo. Cada leitor perceberá que, ao contrário dos videojogos, aqui não existem resets nem segundas oportunidades, mas esta é uma estratégia de sobrevivência perante as ameaças constantes à integridade e capacidade de resistência destas crianças. Também a cultura não é aqui ornamento. Referências a “À Espera do Centeio”, “Pedro Páramo”, “A Mensagem”, “As Aventuras de Huckleberry Finn” ou a um poema de Sophia são formas de diálogo com o percurso das personagens, tal como a banda sonora - “Residente”, entre muitos outros temas - acompanha emocionalmente a narrativa. Literatura e música funcionam como pequenos refúgios contra a barbárie, lembrando que a beleza continua a existir mesmo quando tudo parece perdido.

Falta falar do humanismo do romance, o seu aspecto mais marcante. O livro não vive de heróis perfeitos ou de vilões simplificados. Há migrantes e guias, indígenas e “coiotes”, africanos, sírios, bengalis, cada um trazendo consigo uma história que desmonta fronteiras e nacionalidades. O romance insiste numa ideia profundamente ética: ninguém é apenas um número, um fluxo migratório ou uma notícia. Cada pessoa transporta uma vida inteira “na mão” - expressão que ganha uma força simbólica extraordinária à medida que o romance avança. No fim, compreenderemos que a travessia de Darién é maior do que Darién. Violenta e inóspita, a selva existe feita de árvores que escondem o sol, de rios que reclamam vidas, de homens que esqueceram a compaixão. Mas nela reside também uma geografia invisível, feita de gestos de cuidado, de mãos estendidas, de palavras que confortam e impedem o desespero de se tornar absoluto. “Na Tua Mão” não oferece respostas fáceis nem consolações apressadas. Mas dá-nos algo único e verdadeiramente precioso: a possibilidade de reconhecer no destino do outro uma mão cheia de perguntas dirigidas à nossa própria consciência. Será essa, hoje e sempre, a tarefa mais silenciosa e mais necessária da literatura.

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