“ (...) - Tem sido algo muito intenso descobrir tudo isto, falar com todas estas pessoas. Ganhei um enorme respeito e consciência da dimensão deste legado. A nossa geração não sabe, nem consegue conceber, o que este país foi. Talvez por isso não nos indignemos para além da indignação.”
A atribuição do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís 2024 a “O Processo”, de Dulce de Souza Gonçalves, encontra justificação plena na forma como combina uma narrativa desenvolta, o rigor histórico e a profundidade humana. Estruturado em sete tomos que acompanham uma trajectória simultaneamente íntima e colectiva, o romance parte de um episódio familiar para construir uma cuidada reflexão sobre a repressão política nos derradeiros anos do Estado Novo. Alter ego da escritora, a narradora Carolina assume a tarefa de reconstituir os tempos de luta e resistência do tio Carlos, até à sua prisão e tortura pelos esbirros da PIDE/DGS, convertendo uma investigação documental numa demanda moral e existencial. Escapando aos lugares-comuns da ficção histórica e a uma previsível narrativa panfletária, a autora opta por explorar as zonas de sombra da experiência humana, interrogando as fronteiras entre coragem e fragilidade, memória e esquecimento, verdade e reconstrução. O resultado é um romance emotivo e envolvente, que tem na pesquisa histórica o seu fio condutor e elemento estruturante de uma narrativa capaz de transformar ausências, silêncios e lacunas arquivísticas em matéria literária de enorme qualidade.
A escrita de Dulce Souza Gonçalves distingue-se igualmente pela maturidade com que aborda um dos temas mais difíceis da história da resistência antifascista: a capitulação sob tortura. Num contexto em que a memória pública tende frequentemente a procurar heróis infalíveis, “O Processo” revela uma admirável capacidade de compreensão da complexidade humana. A questão do “falar” nos interrogatórios da polícia política atravessa toda a narrativa sem que a autora ceda à tentação do julgamento retrospectivo ou da exploração sensacionalista do sofrimento. Pelo contrário, a obra procura compreender os mecanismos da violência psicológica e os limites da resistência individual, reconhecendo que a sobrevivência é, muitas vezes, feita de escolhas impossíveis. Paralelamente, o romance retrata uma geração marcada pela clandestinidade, pelo exílio, pela esperança revolucionária e pelas desilusões subsequentes, compondo um fresco social de grande amplitude. As histórias de amor que, em paralelo, atravessam a narrativa, bem como o retrato das relações familiares e dos conflitos ideológicos da época, acrescentam à obra a espessura necessária, equilibrando-a nessa linha imprecisa que separa a realidade da ficção.
Mas “O Processo” é também um romance sobre a própria construção da memória e sobre o acto de escrever. Carolina não procura apenas descobrir o que aconteceu ao tio; procura compreender quem é e de que forma o passado continua a habitar o presente. A investigação histórica transforma-se gradualmente numa reflexão sobre identidade, herança e pertença, conferindo à narrativa uma dimensão universal. Da matéria de que é feito “O Livro”, até ao momento em que verá a luz do dia, Dulce de Souza Gonçalves faz do processo de escrita matéria partilhável, vertendo o próprio leitor no cerne da criação literária. A prosa revela-se simultaneamente fluida e reflexiva, capaz de alternar entre momentos de grande intensidade emocional e passagens de aguda lucidez intelectual. Sem perder de vista o contexto político dos anos finais da ditadura, a autora constrói um romance profundamente humano, questionando documento e testemunho, memória e realidade, História e ficção, e levando-os a dialogar com as questões centrais da historiografia contemporânea. Desta forma, “O Processo” afirma-se como uma das mais interessantes obras recentes dedicadas ao advento do Estado Novo, provando que a literatura continua a ser um instrumento privilegiado de reflexão e tomada de consciência daquilo que fomos e somos.
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