EXPOSIÇÃO: “A Mulher e a Constituição”,
de Albertina Santos, Alzira Neves, Ana Fernandes, Ana Gomes, Ana Maria Fernandes/A.fe, Balbina Mendes, Carmo Diogo, Celeste Ferreira, Céu Costa, Conceição Tavares, Cristina Alves, Cristina Sardoeira, Dina Aguiar, Dulce Barata Feyo, Eduarda Ferreira, Elizabeth Leite, Emília Carvalho, Emília Duque, Estela Gomes, Evelina Oliveira, Felícia, Fernanda Araújo, Filomena Silva Campos, Gina Marrinhas, Hermínia Cândido, Inês Sousa Cardoso, Isabel Babo, Isabel Braga, Isabel Cabral, Isabel Lima, Isabel Mourão Alves, Isabel R. Dolgon, Joana Antunes, Júlia Pintão, Leonor Sousa, Luísa Pinheiro, Luísa Prior, Madalena Macedo, Mafalda Rocha, Manuela Bronze, Maria José Rodrigues, Mónica Silva, Nazaré Álvares, Nucha Cardoso, Odete Pinheiro, Otília Santos, Rosa Bela Cruz, Rosa Dixe, Teresa Gil, Violante Saramago Matos
Curadoria | Rosalina Santos
Centro Cultural de Paredes
02 Abr > 31 Jul 2026
Exposição colectiva patente no Centro Cultural de Paredes, “A Mulher e a Constituição” nasce de uma coincidência histórica que ultrapassa o mero calendário comemorativo. Cinquenta anos depois da aprovação da Constituição da República Portuguesa de 1976, regressa ao espaço público uma reflexão que continua longe de estar encerrada: a da condição feminina em democracia. O enquadramento histórico desta mostra lembra, com uma clareza desconfortável, o quão recente é a consagração legal da igualdade entre homens e mulheres em Portugal. Antes da Constituição democrática, o país habituara-se a uma ordem jurídica onde as diferenças eram não apenas aceites, mas institucionalizadas. A mulher dependia da autorização do marido para viajar, trabalhar ou conservar a nacionalidade; professoras precisavam de consentimento ministerial para casar; enfermeiras casadas podiam ser afastadas da profissão; o adultério feminino podia ainda justificar a violência masculina perante a lei. A memória destas disposições, hoje quase inacreditáveis, percorre silenciosamente a exposição, funcionando como subtexto político de todas as obras reunidas.
Com curadoria de Rosalina Santos, a mostra reúne cinquenta artistas mulheres, convocadas para responder plasticamente a meio século de democracia constitucional. O resultado evita a armadilha da ilustração celebratória e opta por um território de inquietação, onde coexistem memória, denúncia, identidade e resistência. As obras apresentadas recusam uma linguagem uniforme e afirmam a pluralidade do olhar feminino contemporâneo. Há pintura que parte do corpo como território político; outras obras interrogam o silêncio doméstico, a herança patriarcal ou a erosão das conquistas sociais; algumas aproximam-se da abstração lírica, enquanto outras optam por um registo simbólico e frontal. Essa diversidade torna-se uma das maiores forças da exposição: não existe uma mulher, nem uma narrativa única sobre emancipação. Existe antes uma constelação de experiências e sensibilidades que revelam como o feminino permanece atravessado por tensões sociais, laborais, afectivas e culturais, devolvendo ao presente a consciência de que os direitos adquiridos não são abstracções jurídicas, mas conquistas concretas, demoradas e frágeis.
O aspecto mais significativo de “A Mulher e a Constituição” reside no facto de não apresentar respostas definitivas. Ao invés de proclamar uma vitória histórica consumada, a exposição insiste nas zonas de fricção entre igualdade legal e realidade quotidiana sempre presentes. Cinquenta anos depois da Constituição, o país continua confrontado com disparidades salariais, violência doméstica, precariedade laboral feminina e sub-representação em múltiplos espaços de decisão. O discurso artístico destas cinquenta mulheres não surge, por isso, como exercício ornamental ou celebratório, mas como gesto crítico e profundamente político. Há nesta colectiva uma dimensão de testemunho geracional, mas também de vigilância democrática. O que se observa na vasta galeria de exposições do Centro Cultural de Paredes não é apenas pintura. É a afirmação de uma voz colectiva que reclama memória, presença e continuidade. Assinada no feminino, esta exposição recorda que a democracia não se esgota no texto constitucional. Cumpre-se, ou falha, na experiência concreta dos corpos, das vidas e das liberdades.
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