Patente ao público na Casa Comum da Reitoria da Universidade do Porto desde o passado dia 13 de Abril, a exposição “Inventarium: Derivas da Forma” inscreve-se num território onde o desenho se emancipa da sua condição de esboço para se afirmar como matriz plena de possibilidades. Distribuído por três salas, o percurso propõe um diálogo aberto entre a bidimensionalidade e o volume, construindo uma narrativa onde a linha deixa de ser gesto para se tornar génese. Densos na sua aparente leveza, os desenhos de Ana Aragão afirmam-se como dispositivos conceptuais em permanente expansão, recusando o fechamento formal e abrindo-se a sucessivas reinterpretações. Ao transitar para a escultura pelas mãos de Frederico Diz, este universo gráfico não se esgota nem se ilustra; antes se desloca, ganha corpo e contradiz a ideia de que a tridimensionalidade constitui um ponto de chegada. Há, neste gesto curatorial, uma inteligência subtil: a de expor o processo sem o cristalizar, permitindo que o visitante acompanhe a deriva das formas como quem observa um pensamento a acontecer.
Mais como fantasma do que como prática, o trabalho de Ana Aragão encontra na arquitectura o seu campo de tensão. As suas “anagrafias” urbanas, traçadas com uma minúcia quase obsessiva, não pretendem representar cidades no sentido convencional, mas sim cartografar experiências. Cada linha parece carregar uma memória, cada aglomerado sugere uma vivência, e é nessa ambiguidade, entre o rigor técnico e a imaginação afectiva, que reside a força da sua obra. Não se trata de edifícios, mas de vestígios humanos; não de plantas, mas de pulsações. Ao deslocar estas composições para o espaço escultórico, a exposição assume o risco de traduzir o íntimo em objecto. E, surpreendentemente, fá-lo sem trair a essência do desenho. As esculturas não impõem uma leitura, antes prolongam a hesitação original, preservando a ideia de cidade como organismo incompleto e mutável. O resultado é uma geografia emocional que se constrói tanto na precisão da linha como na sua capacidade de sugerir o indizível.
Entre a obstinação e a euforia, como alguém que se recusa a aceitar os limites da página, a artista constrói um universo onde cada linha é, simultaneamente, começo e desvio. É precisamente nesta ambição expansiva que a exposição enfrenta o seu maior desafio. Ao insistir na ideia de sistema aberto, de obra em permanente desdobramento, tem-se a percepção de que a tensão que torna os desenhos de Aragão tão singulares tende a diluir-se. A passagem ao volume, embora conceptualmente coerente, nem sempre mantém a mesma intensidade poética, por vezes aproximando-se de uma literalidade que o desenho sabiamente evita. Ainda assim, há momentos de verdadeira revelação, em que a transposição não só funciona como amplifica a experiência original, conferindo-lhe uma presença inesperada. O que permanece, no final, é a convicção de que Ana Aragão não desenha para representar, mas para pensar. Inventário de formas, este “Inventarium” é sobretudo um ensaio sobre a sua infinita possibilidade.
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