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domingo, 21 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Celebrar o Douro, Sempre" | Emerenciano



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Celebrar o Douro, Sempre”,
de Emerenciano
Biblioteca Municipal de Ovar
05 Mai > 04 Jul 2026


O vinho é de moscatel, alvarelhão, penaguiota, malvasia fina, e mana das fragas à ordem de vozes imperiosas como a de Moisés quando feria a pedra de Horeb - a vara mágica do patriarca substituida agora por um alvião de saibramento.
Miguel Torga

“Celebrar o Douro, Sempre – 20 Escritores / 20 Anos do Douro Património da Humanidade”, conjunto de trabalhos do artista plástico Emerenciano, é um exercício de memória cultural que procura revisitar a identidade de uma região através daqueles que a escreveram, interpretaram e eternizaram na literatura. Nascido de uma iniciativa conjunta da Associação dos Amigos do Museu do Douro, do Museu do Douro e da Tertúlia João de Araújo Correia, o projecto reúne vinte escritores cuja obra permanece indissociável da paisagem humana e física do Alto Douro Vinhateiro. A iniciativa encontra em Emerenciano Rodrigues o intérprete visual desta galeria literária, propondo uma leitura que ultrapassa a simples representação fisionómica. Os retratos revelam-se como construções simbólicas onde a figura humana é atravessada por signos, cores e elementos gráficos que remetem para o universo da escrita, entendida pelo artista como uma das mais extraordinárias invenções da humanidade. Cada rosto afirma a singularidade do escritor representado, mas o conjunto adquire uma unidade plástica que transforma a mostra num discurso coerente sobre a criação, a memória e o território. O Douro surge, assim, não apenas como paisagem, mas como matéria narrativa, espaço de trabalho, de sofrimento e de beleza, sucessivamente recriado pela literatura e agora devolvido ao olhar através da pintura.

A presença desta exposição em Ovar reveste-se de um significado particular. Ao longo dos anos, o projecto tem percorrido localidades ligadas afectivamente aos autores seleccionados, encontrando na cidade vareira razões históricas e culturais para integrar esse itinerário. Entre elas destaca-se a relação de João de Araújo Correia com Ovar e a admiração que manifestou pelo seu povo, bem como a defesa que fez da criação da Casa-Museu Júlio Dinis. Mas a ligação entre Ovar e o Douro é ainda mais profunda e antiga. Durante décadas, os vareiros estabeleceram intensas relações comerciais com a região duriense, levando para o interior o peixe que sustentava economias e aproximava comunidades. Essas afinidades ficaram registadas na literatura, na memória colectiva e até na toponímia local, constituindo uma herança comum que a exposição convoca de forma subtil. Ao mesmo tempo, a mostra recorda o papel determinante dos homens e mulheres que moldaram a paisagem duriense ao longo dos séculos, transformando um território agreste numa das mais notáveis paisagens culturais do mundo. Os retratos de autores como Guerra Junqueiro, Miguel Torga, Agustina Bessa-Luís ou José Régio funcionam, neste contexto, como pontos de entrada para uma reflexão mais ampla sobre a capacidade da literatura em preservar a memória dos lugares e sobre a forma como a arte pode reactivar esses legados junto de novos públicos.

Vale também a pena olhar para esta exposição e perceber de que forma se inscreve no percurso artístico de Emerenciano. Licenciado pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, o pintor definiu, após o regresso da guerra colonial em Angola, uma linguagem singular baseada na aproximação da pintura à escrita, opção que marcou decisivamente mais de cinco décadas de criação. Tal como noutras séries recentes, também aqui as letras deixam de ser mero complemento visual para se tornarem matéria constitutiva da imagem. A escrita invade os rostos, percorre os espaços do desenho e estabelece uma rede de significados que obriga o observador a ultrapassar a superfície da representação. Esta dimensão conceptual, presente em exposições como “Querer Dizer”, “O Livro” ou “A Verdade Entre Mentiras”, regressa agora ao serviço da literatura duriense. Não se trata apenas de homenagear escritores, mas de questionar os mecanismos através dos quais a palavra se transforma em memória, identidade e património. A pintura de Emerenciano continua a afirmar-se como um território de diálogo entre ver e ler, entre imagem e pensamento, convocando o público para uma experiência que exige atenção e envolvimento. Num tempo marcado pela velocidade e pelo consumo instantâneo das imagens, “Celebrar o Douro, Sempre” propõe precisamente o contrário: uma contemplação demorada, onde arte, literatura e história convergem para recordar que os lugares sobrevivem enquanto houver quem os conte e quem os represente.

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