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sábado, 23 de maio de 2026

LIVRO: "Como Caminhar num Pântano" | Marta Pais Oliveira



LIVRO: “Como Caminhar num Pântano”,
de Marta Pais Oliveira
Edição | Manuel S. Fonseca
Ed. Gradiva Publicações, Março de 2026


“Deverá ter sangrado do nariz, acordou com uma flor vermelha desenhada no lençol. Não quis mudá-lo, era bonita a flor de sangue contrastando com a alvura. Parecia o meu sinal das costas, mensagens de qualquer entidade superior. Essa dor esquisita que assumi como sendo parte natural de mim, habituamo-nos a tudo. É impressionante como um ciclo longo termina num ápice. Como se nunca tivesse acontecido. Rotinas e hábitos, empregos, relações amorosas. Ter saúde o diagnóstico da doença fulminou-me. Durante duas semanas estive dentro de um vórtice. Depois tomei a decisão de não contar a ninguém. Não saberia ser vítima nem quero ser vítima. Comecei a reconhecer-me na terceira pessoa, o afastamento ajuda a digerir a coisa. Escrevo na terceira pessoa, até o eu me atropelar porque o nosso eu é um bicho que precisa de demasiada atenção. É tudo, ainda, uma grande confusão. Evitarei os meus irmãos.”

“Como Caminhar num Pântano” vem confirmar uma das vozes mais singulares da ficção portuguesa contemporânea. Depois de “Escavadoras” e do admirável “Faina”, Marta Pais Oliveira regressa a um território literário que adopta como método o desconforto. Ao longo do romance não são descortináveis quaisquer vestígios de complacência narrativa, tão pouco personagens desenhadas para gerar imediata empatia. E no entanto é impossível não criar uma especial ligação com a invulgar narradora na sua postura fragmentada, irónica, tantas vezes à beira do colapso, mas tão humana, tão nossa. É ela que nos conduz por espaços reconhecíveis e onde nos movemos em permanente estado de falha. Na forma como se desenvolve, o romance aproxima-se do diário, da confissão, da deriva poética, até, mas recusa instalar-se em qualquer género reconhecível. Há entradas breves, pensamentos interrompidos, imagens que regressam como obsessões: o sangue no lençol, a taça estilhaçada, o cisne rosa da feira, as árvores “muito altas”. Tudo parece deslocado da realidade, como se o mundo tivesse sofrido uma fractura à medida da força da escrita de Marta Pais Oliveira. Uma escrita entre a lucidez e o delírio, que progride aos solavancos, prestes a atascar-se em areias movediças, sem cordas nem escoras onde se firmar.

Longe de ser o centro melodramático do romance, a doença paira sobre ele como uma sentença silenciosa. A narradora sabe da proximidade da morte, mas recusa a condição de vítima; prefere os mecanismos de sobrevivência linguística, pequenas sabotagens do real, como se inventar legendas de filmes ou reorganizar pacotinhos de chá pudesse suspender o inevitável. A linguagem deixa de ser instrumento de comunicação para se tornar no último reduto de resistência. Há momentos em que a escrita parece desfazer-se diante dos nossos olhos, tropeçando em frases truncadas, associações inesperadas, lapsos que revelam mais do que escondem. Desse caos aparente emerge uma voz de espantosa coerência emocional. Marta Pais Oliveira possui o dom de transformar o absurdo quotidiano em matéria de inquietação interior. Uma bola de futebol que atinge o rosto da narradora desencadeia uma reflexão sobre acaso e simbolismo; um corretor ortográfico que troca “impostor” por “impostos” convoca a reflexão sobre culpa e identidade. Negro, seco, quase involuntário, o humor retira solenidade ao romance e permite que venha ao de cima a capacidade de escrever sobre fragilidade sem cair na autocomiseração.

Quem leu “Faina” reconhecerá neste livro a mesma recusa em facilitar a leitura. Se no romance anterior o mar funcionava como força devoradora e purificadora, aqui o pântano surge como metáfora de uma existência suspensa, cada passo podendo ser o último. Mas há também, paradoxalmente, uma intensa pulsão de vida. A narradora quer dançar sobre uma ponte, cultivar um quintal, preparar uma mousse demorada, voltar à luz da infância. Entre o desejo e a destruição, quer acreditar “no arco da possibilidade”. Marta Pais Oliveira escreve como quem recolhe destroços, retirando das frases partidas, das memórias incompletas, dos afectos corroídos pelo tempo, uma estranha beleza. “Como Caminhar num Pântano” é um livro exigente, por vezes desesperante, frequentemente brilhante. Não se lê com facilidade, resiste ao leitor, inquieta-o, deixa marcas, cicatrizes. Não dá respostas nem oferece conforto. Mas confere a possibilidade única de entrar numa consciência em combustão lenta. Tal como certos sonhos difíceis de interpretar, eis-nos perante um livro que teima em persistir muito para lá da última página.

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