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sexta-feira, 22 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Entre Luz e Forma” | Adelino Marques



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Entre Luz e Forma”,
de Adelino Marques
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
Parque Biológico de Gaia
08 > 31 Mai 2026


“Entre Luz e Forma”, mostra integrante da 13.ª edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes, espraia-se num território onde a arquitectura abandona a sua condição estática e se deixa atravessar pelo tempo. No centro deste ensaio fotográfico de Adelino Marques ergue-se o Pavilhão Multiusos de Gondomar, projecto do arquitecto Álvaro Siza, aqui revelado não como mero objecto construído, mas como organismo sensível aos caprichos da luz. O betão, o tijolo e as superfícies amplas do edifício tornam-se matéria respirável sob a a luz do sol, gerando composições inesperadas, linhas fugidias e sombras como que desenhadas pelo acaso. Nesta série de imagens, o fotógrafo propõe-se escutar o silêncio da arquitectura e descobrir nele uma pulsação íntima, feita de subtilezas, de ritmos lentos e de uma geometria que se transforma a cada instante do dia. Gesto de notável depuração formal, a pala suspensa da entrada assume um papel central nesta narrativa visual, projectando manchas de sombra e planos de luz que desafiam a percepção e deslocam o olhar para além da função utilitária do espaço. Privado da cor, o edifício ganha densidade táctil e uma dimensão quase abstracta, cada superfície como guardiã da memória da luz que a banhou.

O percurso artístico de Adelino Marques encontra nesta exposição uma síntese particularmente madura da sua linguagem visual, construída ao longo de décadas de observação paciente e de um entendimento profundamente humanista da fotografia. Nascido em Gondomar, cidade onde reside e à qual permanece ligado afectivamente, iniciou o contacto com a imagem fotográfica no final dos anos setenta, no contexto da Faculdade de Medicina do Porto, colaborando com o departamento de fotografia da Associação de Estudantes. A partir daí, consolidou uma formação que passou pelo Curso Livre de Fotografia da Cooperativa Árvore e, mais tarde, pelo Instituto Português de Fotografia, no Porto, experiências determinantes na sedimentação de um olhar simultaneamente rigoroso e contemplativo. Ao longo dos anos, o seu trabalho tem sido mostrado em Portugal e em diversos países da Europa e das Américas, revelando uma consistência autoral rara e uma atenção persistente às relações entre espaço, tempo e presença humana - mesmo quando a figura humana se encontra ausente da imagem. Em “Entre Luz e Forma”, essa maturidade manifesta-se na capacidade de transformar volumes arquitectónicos em acontecimentos visuais e emocionais. As fotografias parecem suspender o tempo e obrigar o espectador a uma desaceleração do olhar, numa época em que a velocidade da imagem frequentemente impede a contemplação.

Mais do que uma exposição sobre um edifício emblemático, “Entre Luz e Forma” afirma-se como uma reflexão sobre a própria natureza do acto fotográfico. De forma natural, estas composições exibem uma dimensão quase musical: as sombras repetem-se como motivos rítmicos, as diagonais criam tensões subtis e a luz age como matéria compositiva essencial, revelando a arquitectura não apenas como construção física, mas como experiência sensorial. A câmara de Adelino Marques procura aquilo que escapa ao olhar apressado: o instante exacto em que a luz transforma a matéria e a converte em linguagem poética. Cada imagem propõe uma experiência de contemplação e descoberta, conduzindo o visitante a uma leitura mais sensível do espaço construído. O preto e branco depurado reforça esse despojamento, eliminando o ruído visual e permitindo que a atenção se concentre nas texturas, nos contrastes e nas subtis variações lumínicas que percorrem as superfícies. Atento às pausas, às inflexões, às mudanças mínimas que alteram a percepção do espaço, Adelino Marques aproxima-se da arquitectura como quem escuta uma respiração. Entre a solidez da forma e a fugacidade da luz, assistimos ao nascimento de um território poético onde o olhar encontra tempo para habitar.

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