Num tempo em que a violência contra as mulheres continua a revelar números alarmantes e discursos frequentemente anestesiados pela repetição mediática, “Cicatrizes” devolve profundidade humana ao tema. Captada pela fotógrafa colombiana Sara Ruiz, num muro entre dois olhares, a inscrição “#NiUnaMenos” funciona como um manifesto silencioso e, simultaneamente, como uma ferida aberta. A imagem - uma das mais incisivas da exposição patente no Centro de Reabilitação do Norte - remete para o movimento feminista nascido na Argentina em 2015, em resposta à escalada dos feminicídios e da violência de género na América Latina. A partir dela, a artista transforma o grito político numa superfície de memória colectiva, onde a violência deixa de ser mero acontecimento estatístico para adquirir densidade afectiva, corporal e íntima, evocativa de uma geografia universal da agressão, essa presença subterrânea que, como se pode ler no texto de apresentação, “atravessa os nossos corpos, os nossos membros e as nossas mentes”.
Condensando uma década de trabalho, as imagens reunidas em “Cicatrizes” recusam o espectáculo da dor fácil. Nelas, a violência surge fragmentada em vestígios, atmosferas e pequenos sinais de ameaça ou vulnerabilidade. Há muros, quartos, corpos frágeis, sombras e silêncios que revelam uma tensão contínua entre o trauma e a sobrevivência. O olhar documental da fotógrafa não abdica da dimensão poética, mas também não se refugia nela: cada fotografia parece perguntar de que modo os sistemas patriarcais moldam os afectos, os medos e até a própria ideia de intimidade. Esse carácter simultaneamente pessoal, social e político, atravessa toda a construção da exposição. Nascida em Bogotá e radicada há dezoito anos em Buenos Aires, Sara Ruiz transporta para este trabalho o cruzamento entre a prática fotográfica e a formação em sociologia, fazendo da imagem um instrumento de investigação emocional e de crítica social. A fotógrafa lembra que a violência destrói corpos, corrói linguagens, condiciona afectos, aniquila pertenças. Talvez por isso as imagens procurem incessantemente pequenos fragmentos de reconciliação humana, sem nunca ceder à estetização complacente do sofrimento.
Integrada na 13.ª edição do iNstantes - Festival Internacional de Fotografia de Avintes, a exposição ganha uma relevância particular pelo lugar onde é apresentada. O Festival, que ao longo dos anos se afirmou como um dos mais consistentes espaços de divulgação da fotografia contemporânea em Portugal, tem privilegiado propostas autorais capazes de articular criação artística, pensamento crítico e intervenção social. Nesse contexto, a presença de “Cicatrizes” no Centro de Reabilitação do Norte reveste-se de uma enorme carga simbólica. Não se trata apenas de expor fotografia num espaço institucional de saúde e recuperação física; trata-se de colocar imagens de trauma, resistência e memória num lugar onde diariamente se confrontam diferentes formas de vulnerabilidade humana. As fotografias de Sara Ruiz dialogam, assim, com a própria ideia de reabilitação, não apenas do corpo, mas também da dignidade e da possibilidade de reconstrução emocional. E fazem-no sem paternalismo nem retórica panfletária, através de imagens densas, inquietas e profundamente conscientes de que toda a cicatriz é, ao mesmo tempo, marca de violência e prova de sobrevivência.
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