“Falou do pai, dos vários livros em que nomeou o pai, ou seja, todos os livros que escreveu. Explicou que falava do pai quando escrevia pai ou o meu pai, como no primeiro livro que publicou, Morreste-me; explicou que falava do pai até quando escrevia céu, até quando escrevia sobre escritores de óculos ou empresários de bigode, como nos dois romances anteriores. E comoveu-se ao lembrar o pai, o rosto do pai a olhá-lo, e entusiasmou-se ao explicar ideias, referiu a palavra ficcionalização, utilizou todo o campo lexical da palavra biografia. Quando terminou de falar, o silêncio foi ainda mais opaco, ninguém pareceu entender o que tinha dito.”
O regresso de José Luís Peixoto ao romance confirma uma ambição literária que ultrapassa largamente o mero retrato da doença inscrito nas páginas de “A Montanha”. Partindo de um conjunto de testemunhos recolhidos no Instituto Português de Oncologia do Porto, o autor constrói um mosaico de vidas suspensas, vindas de geografias e circunstâncias diversas, unidas pela experiência comum do cancro. Porém, mais do que um romance sobre a doença, este é um livro sobre o acto de a narrar — e, sobretudo, sobre a impossibilidade de o fazer de forma total. A estrutura fragmentária, evocada no próprio texto como uma “manta” de origens múltiplas, reflecte essa tentativa de apreender o indizível: episódios dispersos, vozes que surgem e se dissipam, histórias que recusam o conforto ou o alívio. Neste sentido, o que José Luís Peixoto propõe é um objecto literário situado algures entre o documental e o onírico, entre a empatia e o distanciamento crítico, desafiando o leitor a aceitar a incompletude como forma de verdade.
É, contudo, na dimensão metaliterária que A Montanha encontra a sua singularidade mais incisiva. O “Escritor”, figura simultaneamente autobiográfica e ficcional, observa-se, desmonta-se e, não raras vezes, ridiculariza-se. Nos excertos apresentados, essa auto-ironia ganha corpo através de diálogos que expõem fragilidades estruturais, hesitações, lugares-comuns da própria narrativa, num gesto de desarmante honestidade. Ao convocar nomes como Gustave Flaubert, Franz Kafka, Kōbō Abe ou Walter Benjamin, o romance inscreve-se numa tradição reflexiva que interroga o próprio estatuto da literatura. A crítica interna, encarnada na voz de um enigmático Björn, evidencia uma consciência aguda dos riscos do projecto: a dispersão, o excesso de referências, a tentação de um livro que fala demasiado de si próprio. Mais do que um exercício de erudição, trata-se de uma tentativa de situar o acto de escrever entre duas tensões, o que é herdado e o que é vivido, num mundo onde ambas parecem insuficientes para dar conta da realidade extrema da doença.
Por fim, “A Montanha” é atravessado por uma linha íntima e persistente: a memória do pai de José Luís Peixoto, cuja morte regressa como ferida jamais cicatrizada, fazendo eco do gesto inaugural de “Morreste-me”. Essa ausência ganha neste livro uma nova densidade ao cruzar-se com a experiência dos doentes oncológicos, fazendo de “A Montanha” um espaço de reconciliação, mas também de culpa e insuficiência. Reiterada e sublinhada, a palavra “cancro” surge como cerne da narrativa, um termo que concentra medo, estigma e fatalidade, mas que o autor insiste em encarar sem eufemismos, como se nomeá-lo fosse já uma forma de resistência. Em contraponto, emerge a ideia de Ubuntu - “eu sou porque nós somos” - como horizonte ético e afectivo que sustém o texto. A identidade constrói-se na relação, na partilha de histórias, na empatia possível, ainda que imperfeita. Entre a fragmentação e o desejo de unidade, entre o silêncio e a palavra, José Luís Peixoto ergue um romance que não oferece respostas fáceis, mas que encontra, na sua própria inquietação, uma forma rara de humanidade.
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