CINEMA: “Os Domingos” / “Los Domingos”
Realização | Alauda Ruiz de Azúa
Argumento | Alauda Ruiz de Azúa
Fotografia | Bet Rourich
Montagem | André Gil
Interpretação | Blanca Soroa, Patricia López Arnaiz, Miguel Garcés, Juan Minujín, Mabel Rivera, Nagore Aranburu, Irina Robledo Espinosa, Nora Careaga Iglesias, Neizan Alonso Hernández, Leire Zuazua, María Rodríguez Maribona Delgado, Guille Zani
Produção | Manuel Calvo, Marisa Fernández Armenteros, Sandra Hermida, Nahikari Ipiña
Espanha, França | 2025 | Drama, Thriller | 115 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 18
06 Abr 2026 | seg | 16:05
Ainara, uma brilhante e idealista jovem de 17 anos, tem de escolher o curso que quer seguir. Porém, ao sentir-se cada vez mais próxima de Deus, pondera abraçar a vida monástica. Há um gesto inaugural em “Os Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa, que parece inverter, com serenidade quase desconcertante, a gramática habitual do cinema que tem na adolescência e na juventude o seu foco. Onde tantas narrativas procuram a ruptura, a fuga ou o grito, aqui instala-se o contrário: uma inclinação íntima, quase silenciosa, para o recolhimento. Ainara não quer experimentar o mundo, antes abdicar dele. E essa escolha, que poderia ser tratada como se de uma excentricidade ou desvio se tratasse, surge filmada com uma limpidez desarmante, sem ironias nem qualquer forma de dramatismo. O que está em causa é a decisão enquanto abalo e não tanto a fé enquanto doutrina, um pequeno terramoto doméstico que expõe fissuras antigas. A realizadora prefere observar a repercussão do gesto, a forma como ele reverbera na família, do que explicá-lo. E assim, Ainara torna-se um enigma, um centro imóvel em torno do qual tudo começa a oscilar.
Esse abalo revela-se sobretudo na coreografia dos afectos familiares, as mais diversas reacções como espelhos individuais de uma forma diferente de sentir e interpretar o mundo. O pai, Iñaki, adopta uma tolerância a roçar a fuga, uma aceitação liberal que encobre a incapacidade de confronto. Já Maite, a tia, emerge como a verdadeira força dramática do filme, erguendo uma recusa que não é apenas ideológica, mas visceral, nascida de um amor que se confunde com o medo da perda. A oposição entre ambas não constrói vilões nem heróis, antes desenha um duelo entre certezas inconciliáveis: a fé e o cepticismo, a entrega e a resistência, a clausura e a informalidade, a tradição e a modernidade. À mesa, nos silêncios e nas frases suspensas, o filme encena um teatro de tensões feito de gestos que carregam anos de não-dito, sugerindo, com toda a subtileza, que o fervor secular pode ser tão rígido quanto o religioso e que há dogmas também na recusa dos dogmas.
Formalmente, o filme sustenta essa ambiguidade com uma encenação depurada, a câmara no lugar de quem observa sem julgar, o tempo como que dilatado nos interstícios das relações. A vida quotidiana - festas adolescentes, ensaios de coro, conversas banais, os primeiros beijos - entrelaça-se com a ideia de recolhimento, criando um contraste delicado entre o ruído do mundo e o apelo do silêncio. Neste jogo de espelhos, Ainara permanece opaca, recusando oferecer à narrativa a chave do seu próprio mistério. Entre a repetição, a disciplina e a renúncia, não há romantização no convento, apenas a exposição do seu rigor. É essa lucidez que torna a escolha de Ainara mais radical, quase incompreensível. Blanca Soroa compõe-a com uma quietude firme, uma contenção eloquente, enquanto Patricia López Arnaiz dá a Maite uma densidade vibrante, feita de incertezas e contradições. Sem oferecer respostas nem redenções fáceis, “Os Domingos” deixa o espectador entregue a um silêncio habitado e àquilo que, no fundo, talvez nunca possa compreender.
Sem comentários:
Enviar um comentário