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segunda-feira, 20 de abril de 2026

DANÇA: “Again Forever” | Lisa Vereertbrugghen



DANÇA: “Again Forever”
Conceito e coreografia | Lisa Vereertbrugghen
Som | Michael Langeder
Luz | Vera Martins
Aconselhamento coreográfico | Arno Ferrera
Intepretação | Ife Day, Sophie Guisset, Cynthia Loemij, Maisie Woodford
Produção  | CAMPO
60 Minutos | Todas as idades
Festival Internacional DDD - Dias da Dança
CRL – Central Elétrica
18 Abr 2026 | sab | 17:00


Pode a lentidão ser subversiva? A pergunta serve de eixo para “Again Forever”, o mais recente trabalho de Lisa Vereertbrugghen, mostrado no Porto ao abrigo da 10.ª edição do DDD – Festival Dias da Dança. Conhecida por uma investigação rigorosa sobre as dimensões físicas e políticas da cultura techno, em particular das suas variantes mais rápidas e intensas, a coreógrafa belga desloca agora o foco para o extremo oposto do espectro rítmico. Se antes a urgência e a exaustão ditavam o pulso, aqui é a dilatação do tempo que orienta o gesto. Longe de ser mero abrandamento, a lentidão afirma-se como dispositivo crítico, um modo de resistir à aceleração dominante, de suspender expectativas e de reconfigurar a atenção. O palco torna-se, assim, um campo de desaceleração, num convite ao público a reaprender a ver.

Elemento central tanto na música electrónica como nas práticas coreográficas, em “Again Forever” a repetição adquire uma nova espessura. Ao refrear padrões reconhecíveis, Vereertbrugghen revela microvariações que, em regimes mais rápidos, passariam despercebidas. O corpo não abandona a lógica do loop, antes a expande, tornando visível o esforço, o peso e a duração implicados em cada transição. Esta estratégia aproxima a peça de uma espécie de arqueologia do movimento, cada gesto a revelar-se como que escavado no tempo. Entre a familiaridade e o estranhamento, o espectador reconhece nos ecos da pista de dança uma tensão produtiva, mas confronta-se com a sua transfiguração. Tradicionalmente associada ao colectivo e à catarse, a dança social surge aqui como prática introspectiva, quase meditativa, revelando a sua dimensão política.

Essa política da lentidão manifesta-se também na relação com o público. Ao recusar clímax fáceis ou picos de intensidade, a obra desafia hábitos de consumo cultural moldados pela rapidez e pela gratificação imediata. Em vez disso, propõe uma experiência de continuidade e distensão do tempo, onde a atenção é continuamente negociada. Não se trata de impor silêncio ou imobilidade, mas de criar condições para que outras formas de escuta e de presença possam emergir. Neste sentido, “Again Forever” dialoga com debates contemporâneos sobre produtividade, exaustão e resistência, sugerindo que abrandar pode ser um gesto radical. No contexto dos DDD, a peça destaca-se como um convite a reconsiderar não apenas o tempo da dança, mas o tempo social em que nos movemos - e, talvez, a imaginar outras cadências possíveis.


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