“Quem inventou a partida não sabia o que era amar” é daqueles momentos quase suspensos em que o teatro deixa de ser apenas lugar de representação para se tornar matéria viva em construção. No espaço inclinado da plateia do Centro de Artes de Ovar, a pendente física revela-se no que tem de simbolismo, como se tudo ali estivesse prestes a deslizar para fora de um eixo estável. E, no entanto, ergue-se uma casa. Ou melhor, a ideia de uma casa, feita de gestos, de hesitações, de uma coreografia silenciosa que aproxima os dois criadores de um bailado doméstico, no qual cada objecto parece conter uma memória. Maria Sevila e Ruben Carneiro, recusam a comodidade da obra fechada e oferecem ao público o avesso do gesto artístico: o processo, a dúvida, o peso de cada decisão. Deste acto de construir à vista de todos, que a música de Noiserv reforça, resulta algo de profundamente humano, uma vulnerabilidade exposta que convida o espectador, mais do que a ver, a reconhecer-se. Porque aquela casa por terminar é figura metafórica de todas as casas que habitámos. E das que nunca chegámos a habitar.
Ao deslocar a instalação do espaço expositivo para a plateia, o dispositivo cénico tensiona fronteiras e convoca uma reflexão que ultrapassa o campo estritamente artístico. Aqui, o contexto não é um mero enquadramento, antes matéria constitutiva do sentido. Ao assistir à montagem, o público é colocado numa posição ambígua, entre o voyeur e o cúmplice, a contemplação e a participação. Levanta-se, aproxima-se, filma, fotografa - gestos que denunciam uma contemporaneidade apressada, quase ansiosa por capturar o instante antes que ele se dissolva. Mas o tempo da obra resiste a essa voragem. Há uma insistência na duração, na lentidão, que contraria o ritmo de um mundo em permanente aceleração. Nesse desfasamento encontra a peça a sua força crítica, obrigando o espectador a permanecer, a observar, a pensar. A casa que ali se constrói não é apenas abrigo. É campo de fricção, território instável, local de interrogação mútua entre identidade e pertença. Que lugar é este que habitamos? Quem fica de fora quando o definimos? O que restará quando partimos?
Mais do que uma reflexão sobre arquitectura afectiva, esta instalação convoca uma ética do olhar e da presença. O público deixa de ser figura passiva para se tornar elemento activo na dinâmica do espectáculo, responsável pelo modo como se inscreve num espaço partilhado. Há, por isso, uma dimensão política subtil, mas persistente: a provocação de um colectivo que se reconhece na fragilidade e na necessidade do outro. Num tempo em que o individualismo se impõe como norma, “Quem inventou a partida não sabia o que era amar” insiste na urgência do amor, da amizade e da partilha, valores que parecem gastos, mas não esgotados. Como argamassa invisível, são eles que sustentam a possibilidade de uma casa. Não perfeita, não definitiva, mas habitável. E talvez resida nisto a maior conquista desta obra: lembrar-nos que construir, tal como amar, é sempre um acto inacabado, feito de tentativas, de falhas e de recomeços. Uma prática de resistência contra o esquecimento daquilo que nos liga.
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