DANÇA: “16 & 17”
TAO Dance Theatre
Direcção Artística | Tao Ye, Duan Ni
Coreografia | Tao Ye
Composição musical | Xiao He
Figurinos | Duan Ni
Interpretação | Xu Fujin, Tong Yusheng, Liu Yiren, Cheng Leting ,Li Jiayu, Wu Zhenkai, Lu Wenchao, Wang Jingping, Jia Lixue, Zhang Xi, Lee Yuyun, Bian Yefei, Jiao Xuexu, Gao Yanrui, Xiong Shuai, Zhao Xueyi, Huang Jiabin
Produção | TAO Dance Theatre
50 Minutos (com intervalo) | Todas as idades
Festival Internacional DDD - Dias da Dança
Rivoli - Grande Auditório
18 Abr 2026 | sab | 19:30
No último fim de semana do DDD – Festival Dias da Dança, a apresentação de “16&17”, do coreógrafo chinês Tao Ye, confirmou a singularidade de um percurso artístico que tem vindo a afirmar-se pela depuração formal e pela insistência numa gramática do corpo essencial. Integradas na chamada “Numerical Series”, as duas peças funcionam como um díptico coerente no qual a pesquisa do movimento se mostra despojada de narrativas convencionais, muito próxima de uma ideia de linguagem universal. Tao Ye, cuja formação atravessa tanto o rigor institucional como experiências em companhias de relevo na China, desenvolveu um sistema próprio - o “Circular Movement System” - que aqui encontra uma expressão particularmente depurada. Em vez de recorrer a dramatizações supérfluas, o coreógrafo investe na repetição, na variação mínima e na atenção ao centro de gravidade do corpo, propondo uma experiência que exige do espectador uma disponibilidade quase meditativa. O resultado é um objecto artístico que, embora profundamente enraizado em referências orientais, dialoga com sensibilidades contemporâneas globais, desafiando as fronteiras entre a tradição e a experimentação.
Em “16”, essa investigação traduz-se numa impressionante organização colectiva: dezasseis bailarinos dispostos numa linha contínua, evocando, de forma estilizada, as danças tradicionais do dragão e da serpente. Longe de qualquer exotismo superficial, Tao Ye transforma esta inspiração num estudo rigoroso de transmissão de energia. O movimento percorre a linha como uma onda, propagando-se entre corpos que parecem funcionar como segmentos de um único organismo. A coluna vertebral assume-se como eixo central, articulando torções, espirais e deslocamentos que conferem à peça uma fluidez hipnótica. Há uma economia de meios - figurinos sóbrios, iluminação contida - que reforça a centralidade do gesto. A espacialidade constrói-se em camadas, numa dinâmica onde o avanço e o recuo coexistem, criando a ilusão de um tempo suspenso. A abordagem minimalista intensifica a experiência, obrigando o olhar a concentrar-se nas subtilezas do movimento e nas micro-variações que estruturam a coreografia.
Já “17” propõe uma ruptura aparente com essa linearidade, ao dispersar os intérpretes pelo espaço e introduzir uma dimensão sonora que se torna indissociável do movimento. Aqui, o caos é apenas superficial: por detrás da sensação de aleatoriedade, existe uma rigorosa articulação entre som e gesto, as vocalizações feitas de interjeições minimais a funcionarem como extensões físicas do corpo. A peça estabelece um diálogo directo com o trabalho anterior, aprofundando uma investigação sinestésica no cruzamento entre som e imagem. Os bailarinos tornam-se, simultaneamente, produtores de som e agentes de movimento, configurando uma espécie de sistema polifónico em constante mutação. Este jogo contrapontístico entre duas linguagens gera tensões e aproximações, criando uma dramaturgia abstracta mas intensamente sensorial. No seu todo, “16&17” reafirma a proposta estética do TAO Dance Theater: uma dança que recusa ornamentos e narrativas fáceis, para se concentrar na essência do corpo em movimento, propondo uma experiência que é, simultaneamente, física, sensorial, intelectual e marcadamente filosófica.
[Foto: © Fan Xi | https://www.festivalddd.com/current-event/16-andamp-1772196132216/]
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