CINEMA: “O Drama” / “The Drama”
Realização | Kristoffer Borgli
Argumento | Kristoffer Borgli
Fotografia | Arseni Kachaturan
Montagem | Kristoffer Borgli , Joshua Raymond Lee
Interpretação | Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Mamoudou Athie, Hailey Gates, Sydney Lemmon, Hannah Gross, Jordyn Curet, Michael Abbott Jr., Zoë Winters, Jordan Raf, Dee Nelson, Damon Gupton, Ken Cheeseman, Anna Baryshnikov, Doria Bramante
Produção | Ari Aster
Estados Unidos | 2026 | Comédia, Drama, Romance | 105 Minutos | Maiores de 14 Anos
Vida Ovar Castello Lopes
23 Abr 2026 | qui | 17:30
Com data de casamento marcada para daí a uma semana, Emma e Charlie (Zendaya e Robert Pattinson, respectivamente) estão perdidamente apaixonados e ansiosos pelo grande dia. Porém tudo desaba quando, durante uma brincadeira entre amigos, Emma revela um segredo. Essa confissão, brutal e totalmente inesperada, vai contaminar o relacionamento, pondo à prova a confiança e o amor que une o casal. É este o ponto de partida de “O Drama”, filme com o qual o norueguês Kristoffer Borgli disseca, de forma impiedosa, o desconforto contemporâneo. O filme começa como tantas histórias de amor - encontro fortuito, química improvável, promessas de felicidade -, mas rapidamente se revela um exercício de tensão psicológica onde o riso surge sempre envenenado. Afinal, aquilo que julgamos conhecer no outro não passa de uma narrativa confortável que criamos para sustentar o afecto.
É nesse terreno incerto que “O Drama” se torna mais perturbador. Menos importante pelo seu conteúdo do que pelas suas consequências, a revelação de Emma funciona como detonador de uma espiral emocional que expõe a fragilidade das relações modernas. Incapaz de reconciliar o passado da noiva com a imagem idealizada que construíra, Charlie encarna uma ansiedade profundamente contemporânea nessa incapacidade de lidar com a complexidade moral num tempo obcecado com juízos imediatos. Borgli evita o melodrama fácil e prefere prolongar o desconforto, esticando diálogos, silêncios e reacções até ao limite da paciência do espectador. Deliberadamente arrastado, o ritmo mostra que a erosão da confiança não acontece num instante, infiltra-se lentamente. As interpretações acompanham esse movimento: Zendaya recusa simplificações, oferecendo uma Emma simultaneamente lúcida e opaca, enquanto Pattinson constrói um retrato minucioso de colapso interior, feito de hesitações, olhares suspensos e uma crescente paranoia.
Se a ambição temática de Borgli nem sempre encontra correspondência na progressão dramática - há momentos em que o filme parece girar sobre si próprio, reiterando ideias já estabelecidas como a relatividade da culpa, a volatilidade da percepção ou o peso social do julgamento -, ainda assim essa insistência acaba por reforçar o carácter quase experimental da obra, como se o realizador quisesse aprisionar o espectador no mesmo impasse moral das personagens. Visualmente contido, apostando em enquadramentos estáticos e numa paleta fria, “O Drama” privilegia a observação em detrimento do espectáculo, sublinhando a dimensão íntima do conflito. O resultado é um filme desconfortável, por vezes desesperante, mas que dificilmente deixa alguém indiferente: uma reflexão amarga sobre a ideia de amor incondicional, numa época em que tudo parece sujeito a escrutínio. Borgli não oferece respostas e é precisamente essa recusa que torna o filme tão inquietante quanto pertinente.
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