A exposição que agora pode ser vista no Fórum da Maia serve de preâmbulo à compreensão de uma dimensão essencial da obra de Paula Rego: o desenho enquanto matriz de pensamento e a gravura enquanto território de experimentação figurativa. Longe de constituir um mero desvio técnico face à pintura, a prática da gravura afirma-se, no conjunto da obra da artista, como campo autónomo onde ela encontra uma forma de depuração e, simultaneamente, de multiplicação das suas histórias. Desde as primeiras experiências até à maturidade das séries apresentadas, percebe-se como a passagem da imaginação para a chapa implica uma tradução singular - mais directa, por vezes mais crua, mas também mais ágil. Obras como “Unicórnio”, de 2008, sintetizam esse gesto quase alquímico, a criação como acto mágico inscrito na própria matéria. Ao longo da mostra, a gravura revela-se como técnica, mas também como linguagem estruturante que permite à artista desenvolver ciclos narrativos onde as imagens se encadeiam, se repetem e se transformam, como se cada prova fosse simultaneamente tema e variação.
Avançar no percurso é ver que a exposição se organiza como uma deriva narrativa que acompanha a própria lógica de trabalho de Paula Rego. Depois do gesto inaugural de “Unicórnio”, onde a dimensão quase mágica da litografia se afirma, o visitante encontra o núcleo dedicado ao teatro, no qual as figuras assumem formas fortes e gestos expressivos para contar histórias, muitas vezes fruto de uma encenação prévia de “fantasmas” ou figuras no seu atelier antes de passar a imagem para o papel. O universo da artista assume a violência e o absurdo como motores de criação, dando origem a imagens densas, atravessadas por uma inquietação latente. Segue-se “O vinho” (2007), conjunto onde a crítica social se impõe com particular acuidade, evocando memórias do Estado Novo e expondo a banalização do consumo de álcool e as suas consequências no tecido familiar. Este núcleo marca uma inflexão, trazendo para o centro da exposição uma realidade dura, sem concessões, que contrasta com a dimensão alegórica de outros trabalhos.
A partir daqui, o percurso encaminha-se progressivamente para o território ambíguo da infância, tema estruturante na obra da artista. Na “Cruzada das Crianças”, inspirada numa enigmática narrativa medieval, as figuras infantis surgem investidas de uma gravidade desconcertante, presas entre a inocência e a responsabilidade excessiva. Em seguida, a série “Peter Pan”, baseada no texto de J. M. Barrie, revisita um imaginário aparentemente encantado para revelar o seu reverso mais sombrio, onde o medo e a crueldade se insinuam sob a superfície da fantasia. O percurso culmina nas “Nursery Rhymes”, nas quais a artista regressa às rimas e cantigas de infância da tradição inglesa, filtrando-as por um olhar que privilegia o insólito e o simbólico, num jogo subtil entre humor e perturbação. Este desfecho reforça a ideia de que, em Paula Rego, a gravura é uma linguagem viva feita de imagens que prolongam e reinventam incessantemente o poder das histórias.
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