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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

INSTALAÇÃO: “Ascensão do Mont Ventoux” | Manuel Valente Alves



INSTALAÇÃO: “Ascensão do Mont Ventoux”, 
de Manuel Valente Alves
Curadoria | Lúcia Saldanha
Museu Nacional de Arte Contemporânea - Galeria [PeP]
25 Out 2025 > 16 Fev 2026


Na instalação “Ascensão do Mont Ventoux”, Manuel Valente Alves convoca a carta homónima de Petrarca, dispondo-a não como ilustração erudita, mas como dispositivo de fricção entre tempos, práticas e regimes de olhar. A subida descrita em 1336 — física, espiritual, moral — é aqui reinscrita como gesto artístico prolongado, construído ao longo de mais de três décadas de imagens, desenhos e pinturas. Subir deixa de ser apenas vencer a altitude, voltando-se para a importância de insistir no processo: caminhar, parar, observar, regressar, transformar. Contra a lógica de consumo acelerado das imagens contemporâneas, Manuel Valente Alves propõe uma ética da demora, onde o corpo que sobe é também o corpo que resiste à “coisificação” da experiência. A montanha, mais do que paisagem, funciona como operador simbólico: lugar de fricção entre topografia e autobiografia, entre o mundo exterior e a sua inscrição interior. Tal como em Petrarca, a natureza é espelho e obstáculo, mas aqui a epifania não é religiosa, antes crítica, sensorial, construída no atrito entre documentação e invenção.

O núcleo da instalação assenta numa tensão produtiva entre meios: a fotografia como registo do real e do caminhar, o desenho e a pintura como campos de deriva, memória e reinvenção. Esta passagem entre linguagens não é hierárquica, mas processual, revelando uma percepção que se constrói no tempo e se transforma com ele. Se em Petrarca a paisagem conduz à introspecção moral, em Manuel Valente Alves ela torna-se laboratório da percepção: o que vemos, o que lembramos, o que imaginamos. O Mont Ventoux deixa de ser apenas um lugar específico para se afirmar como paisagem mental, atravessada por dúvidas, repetições e deslocamentos. A instalação expõe assim um conflito central da modernidade visual: entre o olhar objectivo e a experiência subjectiva, entre o desejo de fixar e a inevitabilidade da transformação. O gesto artístico surge como percurso de conhecimento e de persistência, onde subir é também aceitar a incompletude e a falha como parte constitutiva do processo criativo.

Esta lógica do percurso e do (des)caminho encontra eco directo em “A Invenção das Nuvens”, a última mostra que vi do artista, no âmbito da Bienal de Fotografia Lamego e Vale do Varosa. Tal como as nuvens, também o Mont Ventoux de Manuel Valente Alves é uma forma em mutação, atravessada por estados sucessivos de visibilidade e ocultação. Em ambas as apresentações, o artista recusa a paisagem como cenário ou objecto estético passivo, trabalhando-a como campo de pensamento onde natureza e cultura, ciência e poesia, corpo e tecnologia se confrontam. Médico de formação e pensador interdisciplinar, Manuel Valente Alves constrói uma obra que observa o mundo com rigor analítico, mas o devolve sob a forma de inquietação sensível. Seja na verticalidade da montanha ou na deriva das nuvens, o que está em causa é sempre a mesma pergunta: como habitar o mundo sem o reduzir, como olhar sem esgotar. No fim, talvez não seja a montanha que se ascende, nem a nuvem que se inventa, mas o próprio olhar que, inapelavelmente, se desloca.

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