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domingo, 8 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA E OBRA GRÁFICA: “Resist” | José Maia



EXPOSIÇÃO DE PINTURA E OBRA GRÁFICA: “Resist”,
de José Maia
Árvore – Cooperativa de Actividades Artísticas
10 Jan > 14 fev 2026


Numa altura em que está a chegar ao fim a exposição “Resist”, de José Maia, percebemos que o simbolismo das obras expostas e o valor das mensagens explícitas pode fazer com que se estendam por muito mais tempo nas nossas mentes. Não apenas pela força dos trabalhos do pintor e da sua valia artística, mas pela densidade ética que as sustenta. José Maia pertence a uma geração para quem a pintura nunca foi um exercício decorativo, mas um campo de fricção entre o mundo e a consciência. Ao longo de décadas de trabalho, exposições e ensino, José Maia construiu uma obra que se move entre o gesto e a reflexão, entre a memória individual e a ferida coletiva, reafirmando a pintura como linguagem viva, capaz de pensar o presente. Formado entre o Porto e Londres, traz consigo uma herança que cruza a exigência formal da pintura moderna com a urgência expressiva de quem viveu, observou e pensou a arte no centro de um dos momentos mais intensos da cultura europeia contemporânea. O contacto com figuras como Paula Rego, Francis Bacon ou Peter Blake não se traduz aqui em citação estilística, mas numa atitude: a recusa do conforto, a insistência na ambiguidade, a pintura como lugar de confronto.

No centro desta exposição impõe-se “Chuva Negra”, acrílico sobre tela com dez metros de largura, como um campo devastado que nos obriga a parar, a observar, a reflectir. A escala monumental não é excesso, é necessidade. A obra remete para a destruição provocada pela guerra — terras queimadas, vidas interrompidas, crenças estilhaçadas —, mas fá-lo sem recurso a uma narrativa directa. É a matéria pictórica que carrega o trauma: camadas densas, ritmos quebrados, uma atmosfera onde a cor se torna peso e a luz, ameaça. Em “Limbo”, óleo sobre tela, a atenção desloca-se para os migrantes, suspensos entre geografias, leis e esperanças. Aqui, a pintura torna-se espaço de espera e medo, de deslocação permanente. Essa mesma ética do olhar concentra-se nos dois pequenos óleos dedicados a Aylan Kurdi, cuja dimensão íntima contrasta violentamente com a magnitude da tragédia que evoca. Já em “Nove pombos”, a paz surge como imagem aprisionada, frágil, quase impossível, lembrando-nos que os símbolos mais universais também podem ser capturados, silenciados ou esvaziados.

Entre a vida e a morte, a ordem e o caos, “Resist” representa a revisitação de alguns dos males que atravessam as sociedades contemporâneas - guerra, migração forçada, perda de humanidade, anestesia moral - não para ilustrá-los, mas para os expor como feridas abertas. As dezassete obras reunidas nesta exposição recusam a neutralidade e convidam a uma tomada de posição activa. Como pode ler-se no texto curatorial, a arte aqui não é entretenimento: é resistência. Resistência à pressa, à superficialidade, à ideia de que tudo pode ser consumido e esquecido. A pintura de José Maia exige tempo, atenção e responsabilidade. Apoiar esta obra — olhá-la verdadeiramente — é um gesto cívico, quase político, no sentido mais humano do termo. Porque, num mundo onde a cultura é tantas vezes reduzida a produto, estas pinturas lembram-nos que a arte continua a ser um dos últimos espaços de liberdade, onde a beleza não consola, mas transforma. E onde resistir é, ainda, uma forma de dizer não.

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