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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

CINEMA: "Sem Alternativa" | Park Chan-wook



CINEMA: “Sem Alternativa” / “Eojjeolsuga eobsda”
Realização | Park Chan-wook
Argumento | Park Chan-wook, Lee Kyoung-mi, Don McKellar, Jahye Lee
Fotografia | Kim Woo-hyung
Montagem | Kim Ho-bin, Kim Sang-beom
Interpretação | Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Woo Seung Kim, So Yul Choi, Park Hee-soon, Lee Sung-min, Yeom Hye-ran, Cha Seung-won, Im Tae-poong, Kim Hyung-mook, Woo Jung-won, Oh Gwang-Rok, Lee Yong-nyeo, Oh Dal-su, Lee Seok-hyeong, Yoon Ga-yi, Yoo Yeon-seok
Produção | Jisun Back, Park Chan-wook, Alexandre Gavras, Michèle Ray-Gavras
Coreia do Sul | 2025 | Comédia, Crime, Drama, Thriller | 139 Minutos | Maiores de 14 Anos
UCI Arrábida 20 - Sala 18
16 Fev 2026 | seg | 14:55


Comédia negra de Park Chan-wook, “Sem Alternativa” parte de um gesto aparentemente simples, mas brutal: o despedimento de um homem cumpridor das regras do jogo e que se tinha na conta de alguém capaz de pôr a entrega e a lealdade acima de tudo. Após vinte e cinco anos de dedicação à empresa, Man-soo é descartado na sequência de uma reestruturação imposta por investidores estrangeiros. A ascensão meticulosa - a promoção celebrada com enguia grelhada no jardim, a casa remodelada, a estufa onde cultiva plantas como quem cultiva certezas - converte-se num cenário de ruína moral. A queda não é apenas económica; é ontológica. A crise avoluma-se e transforma-se em guerra silenciosa contra a dignidade, travada em escritórios assépticos e pautada por entrevistas humilhantes. O trabalho, que estruturava a identidade masculina e burguesa, dissolve-se num mercado saturado, onde qualificados e sobrequalificados disputam migalhas. Park Chan-wook filma esta derrocada com ironia verrinosa, expondo a insensibilidade do capitalismo, sempre disposto a “comer a carne” dos seus fieis servidores para os descartar de seguida.

Ao reduzir o épico à escala doméstica, o realizador transforma o desemprego num campo de batalha íntimo, onde a sobrevivência se confunde com a preservação do orgulho. A partir desse abismo, o argumento, inspirado no romance “The Ax”, de Donald E. Westlake, radicaliza-se até ao grotesco: eliminar fisicamente a concorrência para recuperar o lugar perdido. A premissa poderia resvalar para o absurdo gratuito, mas o realizador converte-a numa alegoria cortante da competição neoliberal. Cada homicídio é menos um acto de psicopatia do que uma extensão lógica de um sistema que normaliza a exclusão. Park Chan-wook evita glorificar as elites, antes preferindo observar os que ficam à margem, esmagados por processos automatizados, pela dependência tecnológica e por uma ética corporativa que troca a lealdade pela eficiência algorítmica. A violência surge com um humor negro de filiação “hitchcockiana”, pontuada por música elegante e por uma “mise-en-scène” que alterna o bucolismo dos jardins com a frieza dos interiores modernos. A natureza - árvores plantadas, arrancadas, moldadas - faz eco do destino dos trabalhadores, cultivados enquanto úteis, descartados quando deixam de produzir fruto.

É, porém, no desempenho de Lee Byung-hun que o filme encontra a sua mais perturbadora humanidade. No papel do empregado despedido, o actor compõe aqui um homem comum corroído pela vergonha, pela suspeita de infidelidade e pela erosão da virilidade social. A sua máscara oscila entre a patetice e a ameaça, fazendo do riso um sintoma de desespero. Outrora celebrado pela violência operática de “Oldboy - Velho Amigo” ou, mais recentemente, pelo belíssimo “A Criada”, Park Chan-wook opta agora por uma narrativa mais linear, o que poderá frustrar quem espera a vertigem formal de filmes anteriores. Ainda assim, a contenção é sinal de maturidade. A sátira é mais difusa, menos explosiva, porém mais insidiosa. Retrato ácido de uma sociedade que confunde valor humano com empregabilidade, “Sem Alternativa” deixa no espectador o sabor amargo de quem olha à sua volta e, num mundo globalizado, sente estar a ver o mesmo filme dia após dia. No fim, a expressão “sem alternativa” soa menos a fatalidade do que a álibi colectivo. Ela serve de justificação à nossa rendição quotidiana a um sistema que exige tudo , oferecendo em troca quase nada.

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