CINEMA: “A Voz de Hind Rajab” / “Sawt Hind Rajab”
Realização | Kaouther Ben Hania
Argumento | Kaouther Ben Hania
Fotografia | Juan Sarmiento G.
Montagem | Qutaiba Barhamji, Kauother Bem Hania, Maxime Mathis
Interpretação | Saja Kilani, Motaz Malhees, Amer Hlehel, Clara Khoury, Nesbat Serhan, Ramy Brahem, Firas Khoury, Ali Talel Yacoub, Heba Bader, Oday Ayoyda, Mostfa Ben Abdallah, Ghassen Bel Haj, ,Hbiba El Baatout, Mariem El Draoui, Hedia Khayati, Jaweher Saad
Produção | Nadim Cheikhrouha, Odessa Rae, James Wilson
Tunisia, França, Estados Unidos, Reino Unido, Itália, Arábia Saudita, Chipre | 2025 | Drama | 149 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 - Sala 8
14 Fev 2026 | sab | 19:25
“Os media apresentam as mortes em Gaza como danos colaterais. Acho isso desumanizante e é por isso que o cinema, a arte e todas as formas de expressão são tão importantes para dar voz e rosto a essas pessoas”. As palavras de Kaouther Ben Hania, a realizadora deste necessário e urgente “A Voz de Hind Rajab”, persistem em ecoar na minha cabeça. A história parte de um facto real, ocorrido em finais de Janeiro de 2024, em torno das derradeiras horas de uma menina palestiniana de seis anos, isolada no interior de um automóvel crivado de balas no norte de Gaza, rodeada pelos cadáveres dos familiares, mantendo como único fio de vida o contacto telefónico com voluntários do Crescente Vermelho. Lançando mão das gravações autênticas dessas chamadas, a cineasta incorpora-as numa encenação ficcional que recria o interior da central de emergência. O dispositivo é poderoso e inquietante, com a realidade a romper as malhas da ficção e a anular qualquer distância confortável. À semelhança do que fizera em “Quatro Irmãs”, Kaouther Ben Hania cruza o documental e a dramatização, mas aqui abdica de qualquer ambição salvífica para apostar num embate frontal com o espectador. O resultado é um objecto cinematográfico que vive da urgência, do desespero e da repetição do horror, comprimindo noventa minutos num crescendo de aflição a raiar o insuportável.
Em Gaza, como em Auschwitz, é o mesmo grito que se eleva da imagem e, sobretudo, dos sons. Os disparos mataram os tios e quatro primos de Hind Rajab, uma menina de seis anos que seguia no carro e que sobreviveu. São as três horas seguintes de contactos entre a criança e o ramo palestiniano do Crescente Vermelho, em Ramallah, que nos são dadas a sentir. Deste lado da linha, os profissionais esforçam-se por manter a menina calma até à chegada de uma ambulância que tarda, afundada num complexo de autorizações verdadeiramente kafkiano enquanto não chega a tão ansiada luz verde. Depois é a angústia de uma viagem de oito minutos, até que o som de uma explosão põe fim à tentativa de resgate com a morte dos dois paramédicos. A comoção é constante, física, visceral, convocando a reflexão e exigindo respostas à altura da violência do impacto. A utilização da verdadeira voz da criança confere uma autenticidade incandescente, transformando cada palavra num punhal cravado na consciência do público. O espectador reage, revolta-se, sofre ao pensar nas causas, nas responsabilidades difusas, no emaranhado político que sustenta a tragédia. Enquanto arte, o cinema assume o papel de grande amplificador do choque, recusando o papel de refém de um presente que consome e descarta emoções com a mesma rapidez com que as produz.
É impossível ignorar a força humana que atravessa o filme. As personagens da central - Omar, Rana, Mahdi, Nisreen - corporizam a impotência diante de uma burocracia que esmaga qualquer gesto solidário. O filme expõe a engrenagem absurda que exige a aprovação do exército e a definição de “rotas seguras” para salvar uma criança, revelando como a violência contemporânea é também administrativa, protocolar, quase higienizada nos seus procedimentos. É nesse contraste entre a urgência da menina e a frieza dos mecanismos que o filme encontra a sua dimensão mais perturbadora. Não são elementos abstractos que falham, mas estruturas, cadeias de comando, hesitações, receios de agravar o massacre. Kaouther Ben Hania assume um posicionamento político claro, mas fá-lo sobretudo através do sentir do espectador e não por via de discursos programáticos ou de contextualizações históricas redundantes. Ao concentrar-se num destino individual, converte a estatística em carne e voz, devolvendo singularidade ao que os noticiários transformam em fluxo contínuo de números. Aplaudido durante 24 minutos na apresentação em Veneza, onde arrebatou o Leão de Prata, “A Voz de Hind Rajab” permanecerá como documento inflamável do seu tempo. Um grito a ecoar, mesmo quando os noticiários, vorazes e impacientes, se preparam já para narrar o próximo horror.
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