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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

CERTAME: CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar



CERTAME: CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Musurgia Ensemble, Ensemble Med, New Collegium, William Carter, Ensemble Allettamento, Duo Suzanne e Coro CásterAntiqua
Direcção artística | João Francisco Távora, Hélder Sousa
Igreja Matriz, Bar do Centro de Artes de Ovar, Capela da Misericórdia, Capela do Calvário, Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense, Centro de Artes de Ovar
27 e 28 de Fevereiro, 01, 05, 06, 07 e 08 de Março de 2026 


Arranca hoje a segunda edição do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar, pelo que importa espreitar um programa que, ao longo das próximas duas semanas, promete fazer voltar a atenção dos melómanos para o fascinante mundo da música dos séculos XVI, XVII e XVIII. Como um rio subterrâneo que regressa à superfície, a música antiga reencontra abrigo em alguns dos mais emblemáticos lugares do património ovarense, convocando histórias de sonho e magia e memórias que não cessam de vibrar. Apresentado ao público no passado dia 20 de Fevereiro, o Festival traz com ele uma renovada promessa de qualidade e variedade, cruzando artistas e agrupamentos nacionais como o Musurgia Ensemble e o Ensemble Med, com os neerlandeses do New Collegium ou os espanhóis do Ensemble Allettamento, entre outros. Numa cidade comprometida com o sopro da história e aberta à respiração funda dos instrumentos de antanho, o público vai poder fazer de cada concerto uma travessia, de cada espaço um eco ampliado do tempo. E, tal como sucedeu na primeira edição do CásterAntiqua, vai poder fruir da música antiga não como peça de museu, mas como chama viva que ilumina o nosso próprio tempo, interrogando-o e completando-o.

Como quem franqueia uma porta há muito fechada, o Festival tem o seu início na Igreja Matriz com “Um Outro Café Zimmermann”, pelo Musurgia Ensemble. Sediado em Ovar, o agrupamento promete recriar o fervor musical da Leipzig setecentista, onde pairam, cúmplices, sobre a partilha sonora, os espíritos de Georg Philipp Telemann e de Johann Sebastian Bach. No sábado à noite o Bar do Centro de Artes de Ovar acolhe um “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval”, evocando a confluência das religiões cristã, judaica e árabe, numa geografia onde a música é ponte e memória. O fim de semana termina na Capela da Misericórdia, ao final da tarde de domingo, com o concerto do New Collegium a dar a ver um Telemann camaleónico, de múltiplas máscaras e afectos. Entrando na segunda semana do Festival, o consagrado alaudista britânico William Carter convida-nos a imaginar um serão íntimo “no salão musical de Bach”, a prometer transformar a Capela do Calvário num espaço de intimidade e confidência. Será na quinta-feira, dia 05 de Março, pelas 21h00.

Na sexta-feira o Festival regressa à Igreja Matriz com as cordas dedilhadas do Ensemble Allettamento a conduzirem os presentes por “Folias, Chaconas e Fandangos”, danças que se espalharam por praças e palácios, moldando-se ao engenho de compositores que souberam fazer do ostinato uma arte de infinita metamorfose. Mas o CásterAntiqua não é apenas evocação: é também criação e promessa. A residência artística acolhida no Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, atribuída por concurso internacional, dará palco, na tarde de sábado, ao Duo Suzanne, um jovem agrupamento emergente disposto a revelar-se entre a experiência e a ousadia. Também a comunidade encontra o seu lugar neste desígnio, o Coro CásterAntiqua, as sessões educativas e as visitas guiadas ao património a convergirem para que a música antiga não seja relíquia, mas pertença.

Ao Coro CásterAntiqua, sob a direcção do maestro Jorge Luís Castro, caberá a responsabilidade de encerrar o Festival, chamando ao Centro de Arte de Ovar, pelas 16h00 de domingo, Dia Internacional da Mulher, a música da compositora italiana Maddalena Casulana e várias outras vozes femininas que a História, por desatenção ou preconceito, deixou na penumbra. Fruto de dois meses de trabalho com a comunidade ovarense, o alinhamento do concerto irá estender-se entre madrigais e palavras, no que pode ser visto como uma homenagem, mas também uma reparação simbólica, devolvendo luz à criação feminina no Renascimento europeu e convidando o público a escutar com outros ouvidos, quiçá mais atentos e mais justos, alguns exemplares notáveis de uma realidade escondida. Assim se cumpre o desígnio maior desta segunda edição do CásterAntiqua: fazer do passado um horizonte habitável, onde tradição e contemporaneidade prometem entrelaçar-se num mesmo fôlego. Não se tratará apenas de revisitar repertórios antigos, mas de os reinscrever na vida presente da cidade, fazendo de cada igreja, de cada museu, de cada sala um lugar de encontro e comunhão, de dádiva e partilha.

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