Patente no Palácio Pimenta – um dos cinco núcleos do Museu de Lisboa –, a exposição “Crónicas de uma Lisboa desconhecida” anuncia-se como uma revelação: “a cidade como nunca a vemos”. A promessa é ambiciosa e, em larga medida, cumprida. No Pavilhão Preto, o visitante percorre um mapa antigo que serve de chão e de metáfora, convocando uma Lisboa moderna e contemporânea, entre o final do século XVIII e os anos 1980. O roteiro, organizado em doze núcleos, propõe uma deriva geográfica e afectiva que começa no Terreiro do Paço - a monumental sala de vistas da cidade - para logo desviar o olhar para episódios laterais, como a insólita apanha da minhoca fotografada em 1972 por António Rafael. A estratégia curatorial, assumida por Paulo Almeida Fernandes e defendida por Joana Sopusa Monteiro, directora do Museu de Lisboa, aposta menos na “grande narrativa” e mais na micro-história, menos no ícone e mais no detalhe. O resultado é uma exposição que prefere o buraco da fechadura à janela avarandada, a nota de rodapé ao capítulo central. Uma escolha que, sendo arriscada, se revela coerente com a ambição de desmontar a imagem cristalizada da capital.
Ao longo do percurso cruzam-se bairros e tempos: o Chiado e o incêndio de 1988, as Avenidas Novas e a memória da primeira Feira Popular, a zona do Beato e a Manutenção Militar na Revolução dos Cravos. Mas é nas figuras convocadas que a exposição ganha densidade narrativa. O balonista italiano Vincenzo Lunardi, a poetisa Carolina Coronado ou a discreta primeira directora de museu Julieta Ferrão surgem ao lado de nomes maiores como os de Amália Rodrigues e Carlos Paredes, mas sempre por ângulos inesperados: a tentativa frustrada de transformar a Casa dos Bicos numa casa de fados ou a prisão no Hospital Dona Estefânia. Ao recentrar o discurso em episódios marginais, a mostra questiona a própria construção da memória urbana. Ainda assim, por vezes, a acumulação de pequenas histórias dilui a tensão crítica: o visitante oscila entre o encanto da curiosidade e a sensação de dispersão, como se a cidade infinita prometida se tornasse também excessivamente fragmentada.
Há, contudo, um mérito inegável nesta operação: mais de 95% das peças expostas estavam em reserva. Curvímetros, réguas de cálculo, caixas de bolachas ou máquinas de engomadoria emergem do silêncio das reservas para reclamar estatuto patrimonial. Ao iluminar o que permanecia na sombra, o Museu de Lisboa reafirma-se como laboratório de leitura da cidade contemporânea. A exposição amplia, assim, a sua vocação de exercício narrativo, ao encontro do gesto político de valorização do acervo e de revisão de hierarquias museológicas. Para uma mais íntima visita a cada um dos núcleos desta cidade escondida, tem o visitante ao seu dispor um conjunto de apontamentos da autoria de João Soares, António Raminhos, Isabel Almasqué ou Pedro Bebiano Braga, entre outros. “Crónicas de uma Lisboa desconhecida” pode não oferecer uma visão totalizante — nem o pretende —, mas devolve ao público a consciência de que a identidade urbana se constrói tanto com monumentos como com objectos banais, tanto com mitos como com episódios falhados. E, nessa recusa do óbvio, reside o seu maior mérito.
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