Há mais de três décadas que os Danças Ocultas ocupam um lugar singular no panorama da música portuguesa, erguendo o acordeão diatónico, de instrumento associado ao folclore, para uma linguagem de câmara subtil e profundamente emotiva. Fundado em 1989 por Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo e Francisco Miguel, o quarteto tem sabido construir uma obra coerente e exigente, onde o minimalismo e o lirismo se vestem de contenção expressiva e de um virtuosismo envolvente e sedutor. A sua música, tantas vezes descrita como “folk impressionista”, vive de equilíbrios delicados entre o popular e o erudito, entre o enraizamento na tradição e uma vocação universal que os tem levado a percorrer as mais diversas geografias e a pisar dezenas de palcos um pouco por todo o mundo. Ao longo de álbuns como “Ar”, “Pulsar”, “Amplitude” ou “Dentro Desse Mar”, e de colaborações com coreógrafos, orquestras e músicos de diferentes latitudes, os Danças Ocultas foram afinando uma gramática própria, feita de escuta mútua, emoção colectiva e uma rara inteligência do silêncio. Não tocam para danças existentes, mas para movimentos ainda por inventar, nessa suspensão residindo grande parte do seu magnetismo.
Foi com esse património artístico bem presente que os Danças Ocultas regressaram a um Teatro Aveirense completamente esgotado, ao mesmo palco onde se estrearam em maio de 1989 num Sarau Académico. A apresentação de “Inspirar”, o seu décimo álbum de estúdio e o primeiro após um ciclo marcado por colaborações mais expansivas, soou como um regresso à essência: quatro músicos, quatro cadeiras em semicírculo, e uma música que respira para dentro antes de se expandir no ouvido de quem escuta. A abertura com “Pulsar” estabeleceu desde logo o tom meditativo do concerto, seguida de “Pedra do Sol” e da recuperação de temas como “Tarab”, “Bulgar” ou “Alento”, num alinhamento que cruzou o presente com diferentes momentos de uma extraordinária carreira. Houve especial destaque para “Amplitude”, álbum charneira, de onde surgiram seis temas, culminando num final com “Diatónico”, recebido com o mais longo e caloroso aplauso. Atento e cúmplice, o público soube responder com uma escuta quase ritual, quebrada apenas por manifestações de entusiasmo destinadas a agradecer não só a música, mas também a fidelidade a uma visão artística sem concessões.
A música dos Danças Ocultas nunca é sombria, mesmo quando se move na melancolia. Nela encontramos sempre uma fresta de luz, uma promessa de clareza no meio da contenção. Não é música para consumo rápido, mas para escuta profunda, exigente e, paradoxalmente, reconfortante. Mais do que um simples concerto, o que se viveu no Teatro Aveirense foi uma experiência de partilha sensível, onde os acordes pareceram procurar um lugar íntimo na memória daqueles que tiveram o privilégio de os escutar. Inspirar, como o título bem sugere, foi gesto de recolha, de interiorização, contrastando com a trilogia de álbuns anteriores, mais voltados para fora, para o “respirar” como movimento de saída. Na noite da passada sexta-feira, em Aveiro, confirmou-se uma evidência antiga: poucas formações conseguem transformar um instrumento de limitações técnicas assumidas num território tão vasto de emoção partilhada. Daí o espanto, daí o aplauso devido a um agrupamento apostado em provar que a tradição, quando pensada com rigor e imaginação, não é um lugar de nostalgia, mas de empatia. Um espaço vivo, contemporâneo, aberto ao mundo e a cada um de nós.
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