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sábado, 30 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO: “Re/Descobrir Helena Cardoso”



EXPOSIÇÃO: “Re/Descobrir Helena Cardoso”
Curadoria | Maria Bruno Néo, Luís Mendoça
Conhecer, Mapear, Divulgar
Biblioteca Pública Municipal de Gaia
17 Jul > 27 Set 2025


Será preciso imaginar Portugal há décadas atrás, em contexto totalmente adverso, em circunstâncias desfavoráveis a toda e qualquer dinâmica disruptiva, para melhor se perceber e valorizar o trabalho da designer e artista Helena Cardoso. Ainda hoje, quando as condições são positiva e radicalmente distintas, a obra de Helena Cardoso seria sempre inovadora, especial, ímpar. Como uma obrigação, uma reparação histórica, a exposição “Re/Descobrir” surge como uma forma de divulgar e valorizar a vida e obra de uma artista genial, inaugurando uma série de exposições que se pretende vasta. Integrada no projecto “Conhecer, Mapear, Divulgar”, iniciativa dos designers e investigadores Maria Bruno Néo e Luís Mendonça, a mostra está patente ao público na Biblioteca Pública Municipal de Gaia e reúne o fruto de mais de 40 anos de trabalho, entre artefactos produzidos em diferentes técnicas e materiais e textos e fotografias de Marta Ribas de um vasto conjunto de municípios do Norte de Portugal onde Helena Cardoso desenvolveu a sua obra.

Tal como aconteceu com outros criadores, também no caso de Helena Cardoso a atenção ao seu trabalho foi escassa. Ser muIher, viver arredada dos grandes centros, não pertencer aos círculos de influências, não alinhar pelo mais fácil... terão sido, lamentavelmente, factores de peso. Assim, esta reparação é como um arregaçar mangas com implicações no pesquisar, mapear, confrontar, estudar, contextualizar, organizar, reflectir, divulgar, contagiar, inspirar, praticar. A obra de Helena Cardoso é fruto de décadas de colaboração com artesãos e artesãs de locais diversos; é uma obra extensa e multifacetada. Na joalharia, no vestuário ou no brinquedo, a artista enriqueceu o panorama estético de forma subtil e singular. As suas ideias, projectos e procedimentos revelaram-se inovadores não apenas em benefício dos artefactos, mas também na solidariedade com as pessoas. A sua dinâmica transformou vidas. Graças a ela, muitas mulheres terão conseguido mitigar dificuldades, adquirir bens essenciais, dispor de algumas economias para garantir melhores condições de vida à família, aos filhos.

“Re/Descobrir Helena Cardoso” reflecte também um dos conceitos presentes na obra da designer: A Reutilização, conceito cada vez mais presente nas actuais agendas de sustentabilidade. Todo o suporte expositivo foi conseguido com materiais reutilizados, em que quase todos tinham chegado ao fim das suas vidas, com a colaboração de empresas locais e do município de Vila Nova de Gaia. O resultado é admirável, de uma beleza ímpar, que nos mostra, sobretudo, que é possível criar trabalho relevante e inovador sem depender dos grandes centros como Lisboa, Paris, Milão ou Londres. É possível integrar, apoiar comunidades afastadas do circuito cultural, estigmatizadas, afectadas pelas transformações e suas falências ou sistematicamente excluídas de oportunidades. É possível produzir um trabalho contemporâneo, assente na dupla valorização do tradicional e do industrial, do local e do universal. E que é possível planear colaborações interdisciplinares com pessoas mantendo e valorizando o seu saber, as suas raízes, as suas famílias, os seus anseios. Basta para tal que haja intenções claras, metodologias consequentes, agendas articuladas, procedimentos respeitáveis. Em tudo isto, o trabalho aqui em causa foi e é exemplar.

Helena Cardoso, nascida na cidade do Porto em 1940, é uma designer e artista cuja trajetória se entrelaça profundamente com a valorização da tradição têxtil e a reutilização consciente de materiais. Desde os anos 1980, tem mantido um compromisso constante com o trabalho ao lado de mulheres em regiões menos favorecidas do Norte de Portugal, como Relvas, Bucos e outros centros comunitários, através de projectos promovidos pela Comissão para a Igualdade e Género – anteriormente Comissão da Condição Feminina. Nesse contexto, fundou e promoveu iniciativas como os grupos “Contra o Frio” (relacionados com a lã), “Capuchinhas” (burel) e “Lançadeiras” (linho). A sua intervenção ultrapassa a mera transmissão de técnicas: tem sido uma ponte entre saberes ancestrais e olhares contemporâneos, conferindo dignidade, autonomia e inovação às artesãs envolvidas.

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