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domingo, 31 de agosto de 2025

CINEMA: "Eddington" | Ari Aster



CINEMA: “Eddington”
Realização | Ari Aster
Argumento | Ari Aster
Fotografia | Darius Khondji
Montagem | Lucian Johnston
Interpretação | Joaquin Phoenix, Deirdre O'Connell, Emma Stone, Michael Ward, Pedro Pascal, Cameron Mann, Luke Grimes, Matt Gomez Hidaka, Amélie Hoeferle, Clifton Collins Jr., William Belleau, Austin Butler, Landall Goolsby, Elise Falanga, Rachel de la Torre
Produção | Ari Aster, Lars Knudsen, Ann Ruark
Estados Unidos, Finlândia | 2025 | Comédia, Drama, Western | 148 Minutos | Maiores de 16 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 10
29 Ago 2025 | sex | 16:05


“Eddington” é o mais recente mergulho de Ari Aster na sua teia recorrente de géneros desconfortáveis, que tanto provocam o espectador como o fazem soltar uma boa gargalhada no momento mais inoportuno. A acção decorre em 2020, no auge da pandemia, numa América dilacerada por divisões políticas, desordem social e convulsões raciais. No meio desta paisagem tumultuosa, a pequena cidade de Eddington torna-se palco de um embate ideológico entre um xerife anti-vacinas e o progressista edil local, obcecado por máscaras P2 e acérrimo defensor de distanciamentos sociais e afins. Aster faz uso deste microcosmos para parodiar os extremos da sociedade americana contemporânea, recorrendo a uma direcção que mistura o neo-western dos irmãos Coen com o absurdo das suas obras anteriores, das quais “Beau tem Medo” é o mais recente exemplo. O humor negro emerge entre tiroteios brutais e teorias da conspiração que, embora ridículos, soam perigosamente verosímeis — como se o próprio delírio pandémico se tivesse tornado uma linguagem universal.

Se há algo que distingue “Eddington” dos muitos filmes inspirados pelo confinamento, é a forma como Aster não se limita ao trauma doméstico e opta, antes, por expor o caos social nas ruas. A escolha do elenco é, aqui, meio caminho andado para o sucesso. Num papel que subverte o seu habitual registo de anti-herói introvertido, Joaquin Phoenix interpreta um xerife derrotado mas teimosamente combativo, enquanto Pedro Pascal encarna com brilhantismo um político “woke”, cuja irritação pueril acaba por alimentar os momentos mais cómicos do filme. O confronto entre ambos culmina com duas lambadas, ao som de “Firework”, de Katy Perry. Emma Stone surge como a esposa espiritualista do xerife, num papel um tanto desperdiçado. Apesar de certos desvios narrativos e personagens que pouco acrescentam à trama narrativa, há um charme evidente nesta galeria de figuras desajustadas, como se todas vivessem numa versão demente do nosso próprio mundo.

Do ponto de vista crítico, “Eddington” é uma obra imperfeita, por vezes dispersa, como que perdida entre a sátira mordaz e a farsa mais descontrolada. Mas essa instabilidade narrativa acaba por espelhar com fidelidade o estado de espírito de 2020, um ano em que a realidade, em muitos aspectos, ultrapassou a ficção. Aster não acerta sempre — a sua tentativa de explorar o dilema moral de um polícia negro após o assassinato de George Floyd peca por superficial —, mas não se pode negar a sua ambição: construir um universo em que a pandemia é pano de fundo para uma radiografia cuidada das fracturas sociais. Ao rejeitar o sentimentalismo fácil ou o drama intimista típico das narrativas COVID, o realizador oferece-nos uma tragicomédia irreverente, cujos méritos fazem dela tudo menos consensual. Aster continua, assim, a posicionar-se como um dos autores mais provocadores da actualidade, fiel à sua missão de dividir plateias em vez de as confortar. E num mundo pós-pandémico, onde o absurdo parece ter vindo para ficar, talvez “Eddington” seja mesmo o reflexo do momento presente — imperfeito, desconfortável e estranhamente real.

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