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sábado, 31 de julho de 2021

TEATRO: "Hamster Clown"



TEATRO: “Hamster Clown”
Encenação | Ricardo Neves-Neves
Cenografia | José Manuel Castanheira
Caracterização e adereços | Cristovão Neto
Figurinos | Rafaela Mapril 
Interpretação | Rui Paixão
Produção | Nuno Pratas
55 Minutos | Maiores de 14 anos
Centro de Arte de Ovar
30 Jul 2021 | sex | 21:00


Quando um hamster escapa da roda e se deixa maravilhar pelo jardim das delícias, tudo pode acontecer. Acostumado a um girar constante sem sair do sítio, desconhece a noção de espaço e de tempo e, por conseguinte, a importância de achar o caminho mais curto entre dois pontos. Ao encontro da novidade, sem referentes seguros, rapidamente percebe o acréscimo de energia exigida e o quão facilmente atinge a exaustão. A curiosidade tem os seus riscos, o perigo espreita a cada esquina e os medos não tardarão a inquietá-lo. Bem vistas as coisas, o mundo real não parece feito para hámsteres. O jardim das delícias revela-se, afinal, o inferno na terra, pronto a transformar-se num pântano e a engolir os mais idealistas ou os menos precavidos. Talvez regressar à roda e aceitar a monotonia dos dias, esse túnel infindável cuja luz ao fundo não se adivinha sequer, seja a melhor solução.

Depois de “Alice no País das Maravilhas” e “Banda Sonora”, duas peças verdadeiramente marcantes no muito que levo de ver teatro, regresso a Ricardo Neves-Neves e ao seu mundo de fantasia e imaginação. Em “Hamster Clown”, o encenador volta a sua atenção para assuntos que marcam a actualidade - as pragas, a poluição, o aquecimento global, a publicidade agressiva, o consumismo -, mostrando o quanto condicionam a nossa vida e fazem de nós presas fáceis das ratoeiras deste mundo. Regidos por impulsos primários, incapazes de ceder à tentação, somos tomados pela ganância, pela vaidade e pela luxúria, pecados capitais elevados à categoria de valores que se idolatram e cultivam. A medo lidamos com o outro, os traços dessas relações enterrados no mais fundo dos lodaçais, fazendo de cada acção o crime perfeito. BD’s, animes, cosplays, filmes de fantástico e de terror série Z, serão referenciais neste palco de engenho e arte feito, mas é o homem e a sua essência o cerne da peça. E tudo isto com o ar descontraído de quem só veio ver a bola.

Entre o teatro físico, a dança e a performance mais clownesca, Rui Paixão tem uma prestação irrepreensível nesse labor de dar corpo a um hamster ternurento e repulsivo à vez. Na pose, no gesto, na mímica, na forma como se movimenta, nos ruídos que produz, o actor enche o palco com a sua presença, obrigando o espectador a manter-se agarrado à personagem do primeiro ao último instante. O inquietante começo que logo se verte num divertido processo de transformação, a figura humana a ceder o lugar ao hamster, é um grande momento de teatro, tal como o são todos os momentos que se lhe seguem. De uma entrega e rigor absolutos, Rui Paixão sabe ser comedido nos seus excessos, objectivo nas suas atitudes, convincente na sua expressividade. Nesta extraordinária peça, é inevitável que o espectador acabe por reconhecer em si um pouco deste hamster clown. Talvez por isso, por muito divertida que ela seja, por muito inesperados que sejam os seus gags, capazes de deixarem boquiaberto o espectador mais empedernido, o riso tenderá para o amarelo no momento de abandonar a sala.

[Foto: Bruno Filipe Pires | https://barlavento.sapo.pt/]

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