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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

LIVRO: "Por Dentro do Chega" | Miguel Carvalho



LIVRO: “Por Dentro do Chega - A face oculta da extrema-direita em Portugal”,
de Miguel Carvalho
Edição | Eurídice Gomes
Ed. Objectiva, Setembro de 2025


“Professora de Ventura na faculdade, a catedrática Teresa Pizarro Beleza ouviu-o, enquanto líder do Chega, defender “tudo ao contrário” do que apregoara numa aula de Direito Penal. Discutia-se a penalização do aborto e o estudante André assumiu “abertura progressista” em relação ao tema. “Fazia-o com grande habilidade e aparente convicção, que me ficaram na memória por me parecer que ele falava em parte como se quisesse defender uma posição que imaginaria próxima da que supunha ser a minha”, contou ao DN a primeira mulher a dirigir a faculdade em que Ventura estudou. “Ao vê-lo, recentemente, a defender perspectivas radicais e populistas lembrei essa sensação de ‘oportunismo’ que me ocorrera ao ouvi-lo.”

Numa breve cronologia que ocupa as últimas páginas do livro, olhamos 2025, o ano em que o partido neofascista Chega se assume como segunda força política em Portugal e líder da oposição. Uma das muitas leituras de “Por Dentro do Chega” começa precisamente aí, na possibilidade que o livro oferece de olharmos o momento presente a partir do interior de um projecto político dominado por ambições desmedidas, provocações nas propostas que apresenta, polarizador da vida democrática, mola impulsionadora dos extremos que afectam a nossa sociedade. Como é que chegámos aqui? Os milhares de páginas de documentos inéditos e largas dezenas de entrevistas exclusivas com fundadores, financiadores, actuais e antigos dirigentes e militantes do partido neofascista Chega, compilados laboriosa e inteligentemente por Miguel Carvalho e apresentados no livro sob a capa do “Deus, Pátria, Família… e Trabalho”, respondem à questão de forma muito clara. Por isso é tão importante este documento. Por isso os milhares de horas de trabalho que se adivinham nas suas páginas são merecedores do mais vivo apreço e gratidão. Por isso este é um livro que marca a história do jornalismo e da literatura em Portugal.

“Por Dentro do Chega”, surge num momento politicamente volátil no nosso País e expõe com rara contundência a deriva radical do partido neofascista Chega, um fenómeno que ecoa tendências da extrema-direita europeia. Fruto de um trabalho de investigação jornalística que teve o seu início em 2019 e se prolonga até aos nossos dias, o documento descreve um partido que, apesar de ser a segunda força parlamentar do país, se revela hostil à Constituição que jurou cumprir e fazer cumprir. O livro mostra como a reacção do partido neofascista Chega segue uma cartilha própria: negar tudo, dizer hoje uma coisa e amanhã o seu contrário, acusar o Estado de perseguição, afirmar-se vítima de uma elite autoritária, culpar as minorias de todos os males de que enferma a sociedade, instrumentalizar a linguagem democrática para atacar a própria democracia e, com isto, ir ao encontro dos que apenas buscam “pão e circo”. Afinal, quem é que nos dias de hoje precisa de respostas complexas, equilibradas e factuais do ponto de vista noticioso, se pode empanturrar-se com narrativas apimentadas por druidas especializados na poção mágica de “fast food” informativo e de entretenimento?

“Por Dentro do Chega” mostra que a radicalização do partido neofascista Chega não é ocasional, mas estrutural, ancorada numa liderança que normaliza um discurso xenófobo e racista, incompatível com o princípio constitucional da dignidade humana. Sem máquina de base capaz de influenciar estrategicamente um pensamento organizado, resumido à figura do líder supremo, o partido acompanha uma deriva disposta a testar limites e a radicalizar discursos. A insistência em distinguir entre “portugueses de bem” e os “outros” ilustra uma contradição fundamental: um partido que se apresenta como defensor da verdade e da justiça enquanto mina os seus fundamentos mais básicos. O livro documenta dezenas de declarações de dirigentes e ex-dirigentes do partido neofascista Chega que repetem argumentos raciais, slogans de desumanização e teorias conspirativas. Esta insistência reflete um mecanismo típico da extrema-direita contemporânea: transformar os migrantes, os muçulmanos ou os refugiados num bloco homogéneo e ameaçador, capaz de justificar políticas de exclusão em larga escala. As contradições sucedem-se: ao mesmo tempo que negam qualquer racismo, líderes do partido neofascista Chega descrevem migrantes como espécies invasoras, fardo civilizacional ou fonte de criminalidade intrínseca, ignorando dados que refutam tais generalizações.

Na esteira de “Dr. André e Mr. Ventura”, Miguel Carvalho vai desfiando o rol de contradições, casos e vendettas, trazendo para primeiro plano figuras e figurões da direita radical populista. A leitura faz-se de náusea e nojo em narrativas forjadas à medida dos “portugueses de bem”, relegados para segundo plano por elites globais que os substituem por quem não conhece a língua e a cultura portuguesas. O argumento serve de justificação para propostas de “remigração” em massa, apresentadas como simples medidas administrativas de deportação legal - “isto não é o Bangladesh” -, com o conluio do governo “não é sim” de Montenegro. O livro também compila dezenas de incidentes de retórica antidemocrática, capazes de, pela via da normalização, criar distorções num ecossistema onde o debate público é corroído e a violência política se torna palpável, um padrão tristemente observado noutros contextos de radicalização da direita no Ocidente. A manipulação dos números sucede-se e não é acidental, visando criar a ilusão de ameaças existenciais, estratégia típica de movimentos que prosperam pela fabricação de crises artificiais.

As conclusões de Miguel Carvalho destacam ainda ligações do partido neofascista Chega a grupos com historial de violência ou intenções golpistas, incluindo membros envolvidos em terrorismos regionais e movimentos como os grupos 1143 ou Reconquista. Embora o partido insista em apresentar as ligações como excepções isoladas, “Por Dentro do Chega” mostra a ausência de sanções internas ou a reintegração de figuras extremistas, revelando uma contradição profunda entre discurso público e prática interna. Miguel Carvalho sublinha o quanto o partido neofascista Chega depende de contradições fundamentais: denuncia o Estado enquanto dele vive, ataca a democracia enquanto a utiliza, proclama o monopólio da verdade enquanto se sustenta em mitos. Como refere no livro uma ex-dirigente que se confessa “horrorizada com a política”: “Pregamos para fora o que não fazemos cá dentro. Temos nepotismo, indícios de corrupção, conflitos de interesse, boateira, tudo e mais alguma coisa. É assim em todos os partidos… Mas não íamos ser diferentes? (…) Somos a maior fraude da História da política portuguesa. Fazemos adentro tudo o que dissemos que íamos combater.” Como é que chegámos aqui? Exercício de tese levado à prática de como escrever uma peça jornalística no respeito pela verdade dos factos, “Por Dentro do Chega” responde a esta e a muitas outras questões. A ler e reler.

sábado, 10 de agosto de 2024

LIVRO: "A Vida não é Útil"



LIVRO: “A Vida Não é Útil”,
de Ailton Krenak
Pesquisa e organização | Rita Carelli
Edição | Eurídice Gomes
Ed. Objectiva, Novembro de 2020


“O combustível fóssil, do qual o mundo depende hoje, já deveria ter sido abandonado na década de 1990 - todos os relatórios da época o diziam. De lá para cá, aumentou de maneira impressionante a quantidade de coisas fabricadas a partir do petróleo. Temos, desde o fim de 1970, início de 1980, informação sobre a destruição da camada de ozono. Como é que somos avisados de que estamos a furar o tecto do céu e o máximo que conseguimos fazer é trocar de frigorífico?”

Ambientalista, filósofo, poeta e escritor brasileiro, Ailton Alves Lacerda Krenak é amplamente celebrado como um dos maiores líderes do movimento indígena brasileiro. Respeitado internacionalmente pelo seu activismo em prol dos direitos dos indígenas e da preservação ambiental, foi o primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras e ficou conhecido por pintar o rosto de preto no Congresso Nacional Brasileiro, em 1987, como forma de protesto na defesa das causas indígenas na Assembleia Constituinte. O seu legado abrange não apenas uma vasta produção literária, onde se contam títulos como “Ideias para adiar o fim do mundo”, “O Amanhã Não está à Venda”, “Futuro Ancestral”, “O lugar onde a terra descansa” e “Firmando o pé no território”, mas também a sua luta incansável pela justiça e reconhecimento dos povos indígenas no Brasil e em todo o mundo. Do lugar de onde vive, “um abismo” nas margens do Rio Doce que é a “pátria” do povo Krenak, chegam-nos as suas vivências e reflexões através de “A Vida não é Útil”. Um livro que importa.

“A ecologia nasceu da preocupação com o facto de que o que buscamos na Natureza é finito, mas o nosso desejo é infinito, e, se o nosso desejo não tem limites, então vamos comer este planeta todo.” São várias as ideias que convergem numa chamada de atenção para a destruição do planeta e para o desastre anunciado. Do seu ponto de observação no Estado de Minas Gerais, Ailton Krenak fala de uma atitude “caótica e predatória” em relação aos recursos ambientais, de um mundo que está a desaparecer a cada dia e de uma ideia de concentração de riqueza que atingiu um clímax. Denuncia o capitalismo, interessado em vender a ideia de que podemos reproduzir a vida e, inclusivamente, reproduzir a Natureza, ao mesmo tempo que lamenta o modo de vida ocidental, exímio na formatação do mundo como uma mercadoria e fazendo com que uma criança crescida dentro desta lógica viva a existência como se de uma experiência total se tratasse. Perde-se, assim, aquilo que o pensador designa por ideia de “eu sou a Natureza”, a interacção do corpo com o que o rodeia, a consciência da proveniência daquilo que comemos, do ar que respiramos.

O facto de muitas das observações contidas no livro terem sido produzidas em plena pandemia de COVID-19 eleva o seu significado e interesse. Chega a ser irónico lembrar que pode chegar a altura em que a nossa dependência de uma máscara ou de um aparelho para respirar seja total, mas que, por sua vez, o aparelho dependa de “uma central hidroelétrica ou nuclear ou de um gerador de energia qualquer nalgum lugar” e que o gerador pode também desligar-se, independentemente do nosso decreto ou da nossa disposição. Não há forma mais clara e simples de expor a nossa vulnerabilidade, de sermos lembrados que morreremos se nos cortarem o ar por alguns minutos apenas. Albert Camus, Domenico De Masi, Michel Foucault, Sidarta Ribeiro, Suely Rolnik ou David Wallace-Wells são alguns nomes cujas palavras corroboram o pensamento de Ailton Krenak, o qual se alimenta, igualmente, das ideias dos seus ancestrais: “Quando o último peixe estiver nas águas e a última árvore for removida da terra, só então o Homem perceberá que não consegue comer o seu dinheiro.”